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Fiquei pensando sobre o que escrever nessa primeira coluna e diversos assuntos me rodearam a cabeça. Em primeiro lugar, porque é uma grande responsabilidade falar de Mangueira, ainda mais num site com a qualidade que o amigo Rafael criou. Ao mesmo tempo que Mangueira tem histórias que não acabam mais e um conteúdo infinito de assuntos, sempre faltam palavras para se dizer algo.
Ao tentar falar de Mangueira, o poeta Hermínio Bello de Carvalho e o sambista portelense Paulinho da Viola, resumiram logo:
“A Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação.”
Pois bem! Semana passada me dirigia a São Paulo e quando vou a S. Paulo de carro, vou sempre muito bem equipado para encarar com paciência e bom humor e caótico trânsito da cidade. E quando falo equipado, é equipado de músicas de qualidade para ficar ouvindo entre um e outro sinal fechado (olha o Paulinho aí de novo!!!).
Depois de muito tempo, peguei para ouvir CHICO BUARQUE DA MANGUEIRA e de repente, em plena Ponte do Limão, me vi absolutamente envolvido com o som que saía dos auto-falantes do meu carro e de verdade, me emocionei….
Fiquei tentando dar a dimensão exata do que é Mangueira. Do que é a Estação Primeira de Mangueira….
Como pode uma escola de samba, nascida e criada no morro, habitada por gente tão simples, como diz outro samba, na maioria negros, totalmente excluídos da chamada sociedade do início do século passado, mal passados 30 anos da edição da Lei Áurea, teria ganho aquela dimensão e hoje ser a maior e mais respeitada instituição cultural desse país? Como aquele bloco carnavalesco embrionário, marginalizado, perseguido pela polícia, hoje é recebido com pompas e circunstâncias nos melhores salões dessa nação e até do mundo, visto o galhardão exposto com orgulho no Palácio de Buckingham?
Depois de pensar um pouco, concluí que essas glórias da verde-rosa se deram quase que exclusivamente por uma única manifestação: A POESIA. A poesia e o samba, claro… O poema musicado por nossos mestres.
Aí me deparo com o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda, badalado e conceituado nos mais restritos ciclos intelectuais… O Chico “das artes, o gênio” como bem definiu o samba-enredo em sua homenagem em 1998, quando a Mangueira conquistou mais um campeonato, se colocando na condição absoluta de fã, de aprendiz diante das obras de Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Padeirinho, Guilherme de Brito…
E outros, como Herivelto Martins, Caetano Veloso e o próprio Chico, que embora não residentes em Mangueira, sempre fizeram questão de compor sambas de exaltação à escola ou ao morro. Isso sem falar nos portelenses Paulinho da Viola, Monarco, Gilberto Gil, João Nogueira, Paulo César Pinheiro e tantos outros que também fizeram questão de mostrar seu carinho e admiração pela verde-rosa. O salgueirense Benjor, o imperiano Arlindo Cruz e tantos, tantos outros.
É só passear pela Música Popular Brasileira que veremos Mangueira sendo pronunciada nas vozes dos mangueirenses Alcione, Jamelão, Beth Carvalho, Sandra Sá, Emílio Santiago, Leci Brandão, Rosemary, Gal Costa, Maria Bethânia e tantos outros, como Clara Nunes, Ataulfo Alves, Jair Rodrigues, Roberto Ribeiro, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Simone, Dudu Nobre, Cauby Peixoto, Margareth Menezes e inúmeros cantores e cantoras do primeiro time de nossa música.
Então, ao ouvir a voz do Chico entoando Sala de Recepção, enchendo o peito de orgulho e dizendo, na primeira pessoa que: “Temos orgulho de ser os primeiros campeões”, não pude conter a emoção… Chico Buarque, com sua voz pequena e anasalada era a tradução exata do meu sentimento de mangueirense e acredito que de todos nós que amamos essa escola de samba.
Que digam que somos convencidos, orgulhosos e até muitas vezes arrogantes. Mas pergunto, como não ser? É o orgulho de pai, de mãe, é o orgulho de quem ama e vê o ser amado ser cantado em prosa e verso. É ver que somos muito grandes mesmo e que representamos muito mais que o desfile nos contados minutos e nas regras impostas que foram transformando o visual em quesito.
Como não encher os olhos de lágrimas e esquecer o congestionamento envolta e os compromissos profissionais ao ouvir Chico Buarque externar a nossa grandeza.
Vou ficando por aqui e se comecei com Paulinho da Viola, termino também com Paulinho da Viola, pedindo emprestado um verso que ele fez pra sua querida Portela, porém “…se for falar em Mangueira, hoje não vou terminar…”.


