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Posts Tagged ‘Chico Buarque’


Por: Rita Alves

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Lavoisier – 1743*1794)

Interessante acompanhar as transformações pelas quais vem passando a Mangueira. Fui uma das que vivenciou a crise passada, a transição de diretoria, a escolha dos nomes para formar o corpo diretivo, a equipe brava e guerreira que teria a difícil missão de superar o caos em que foi deixada a quadra, os cofres, a auto estima do Mangueirense, enfim, a tarefa de reconstruir a nossa escola deixada em ruínas.

Mas nós, seres humanos, temos a estranha capacidade de destruir e reconstruir, como se em nós habitasse divindade e crueldade, simultaneamente.
Somos capazes de olhar a realidade com espanto, para que este espanto nos empurre a tomar atitudes, a agir no sentido de transformar a situação. Caetano Veloso já prenunciou, em sua música “Fora de Ordem”, a triste situação do nosso Brasil, tão semelhante a diversas realidades de países em desenvolvimento: “ Aqui tudo parece / que era ainda construção / e já é ruína /Tudo é menino, menina / No olho da rua / O asfalto, a ponte, o viaduto / ganindo prá lua / nada continua”, e assim, vemos que aquele que recebe em suas mãos o inigualável patrimônio cultural e social que é a ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA, deveria ter, por respeito às próprias tradições, à memória dos seus antepassados, à toda a comunidade que se empenha e trabalha pela escola, um mínimo de consciência coletiva e não deixar debandar a administração… Não deixar a nossa amada Mangueira em ruínas.

Infelizmente, nós também temos uma constante insatisfação com a realidade, sem nos apercebermos da grandiosidade de cada um dos detalhes que nos cerca, nos tornamos pessimistas, pouco construtivos e alienados… Precisamos, a cada dia, buscar na mesma realidade algo que nos alimente, que nos inspire e nos estimule a seguir. Fernando Pessoa, em seu poema A Espantosa Realidade das Cousas, nos chama a atenção para isso: “A espantosa realidade das cousas / é minha descoberta de todos os dias. / Cada cousa é o que é, / E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, / E quanto isso me basta”.

“Bastar” não significa acomodar, aceitar a dura realidade e ficar na mesmice, mas partir desta base de realidade, que é a RIQUEZA DA HISTÓRIA DA MANGUEIRA e superar as dificuldades, romper com o caos, com base no sólido passado de conquistas e ganhar o novo, o prêmio, a taça, o troféu da transformação.
É fato que Ivo Meirelles e toda a sua equipe estão hoje num carrossel de batalhas diárias; quem tem acompanhado a atual gestão pode confirmar que há um constante exercício de criar novidades, de gerar idéias que transformem a realidade da Mangueira em algo que orgulhe a cada um de nós.

Uma grande movimentação da equipe nos dá a garantia de que as coisas caminham para a reconstrução do que efetivamente representa a Mangueira, ou seja, escola que está muito além de ser apenas uma escola de samba. Seu compromisso com o social e cultural, a produção constante de novos talentos, a capacidade de ser a escola da diversidade, de agregar em seu espaço as mais diversas tendências musicais, sociais, enfim, como se fosse uma pequena mostra do que é o caldeirão cultural brasileiro.

A escolha do enredo não poderia ter sido mais acertada: falar daquilo que mais nos orgulha como mangueirenses e como brasileiros: A MÚSICA DO BRASIL. Contar a trajetória da música brasileira obrigatoriamente passa pela musica produzida nas mesas e barracões que circundam o morro da Mangueira. Sem contar que esteticamente o samba ganha lirismo com Cartola, associa harmonias nunca antes vistas num samba, tornando alguns sambas verdadeiros clássicos da composição nacional.
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Somos, nós da Mangueira, bravos guerreiros, não nos acovardamos diante das tragédias que a vida nos impõe… Como na peça de teatro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, onde o personagem, num momento de desespero tem à sua frente duas opções:

“— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida”

Kayapó-Xikrin- Genipapo
Cildo Oliveira -2008
Título da obra: Kayapó-Xikrin- Genipapo
Papel Manufaturado – 60 x 160

Ontem estive no atelier de um artista chamado Cildo Oliveira. Ele constrói papéis, folhas feitas de argila, tinta, fibras… E uma dessas folhas trazia a reprodução de alguns desenhos (inscrições) das costas de uma índia. Logo pensei: ele recriou desenhos milenares e fez o novo. Recriou o novo. A eterna metamorfose que a arte, a música são capazes fazer. Logo associei à Mangueira. A nossa recriação (e vitória) diária, que nos trará o novo.

João Cabral já disse que a vida é severa, “Severina”, mas nós, felizmente, saltamos para dentro da vida…



geraldo pereira 2 1619361 Mangueira, o berço da Bossa“Aqui nasceu a bossa-nova!” A frase pronunciada por Tom Jobim, não se referia a nenhum local na Zona Sul do Rio de Janeiro, mas sim a outro, um pouco mais distante, mais precisamente o Morro de Mangueira.

O maestro e compositor, Antônio Carlos Jobim sabia bem o que falava, já que é considerado um dos “pais” do movimento que saiu do Rio de Janeiro para o mundo, sendo talvez o mais bem sucedido movimento musical brasileiro, em termos de projeção internacional.

Tom Jobim disse isso, em 1992, quando pisou no Palácio do Samba, quadra da Estação Primeira de Mangueira, às vésperas do carnaval em que seria homenageado pela verde-rosa.

Os mais desavisados ficaram surpresos com a declaração de Tom, sem entender bem o que ele queria dizer, achando talvez que fosse uma forma educada de agradecer à escola, pela homenagem que lhe era prestada. Mas esse agradecimento, ele fez em forma de canção: Piano na Mangueira, em parceria com Chico Buarque.

A declaração do maestro se referia, porém, a outro mangueirense, igualmente genial, mas de certa forma, pouco conhecido: O compositor e cantor Geraldo Pereira. Pessoalmente, coloco Geraldo Pereira no mesmo patamar de Cartola e Nélson Cavaquinho, formando o que se pode chamar de Santíssima Trindade do samba mangueirense. Geraldo, porém, tem o diferencial do pioneirismo, que aliás, é sempre uma marca registrada das coisas de Mangueira.

Considerado o criador do samba sincopado, ou seja, o criador da bossa-nova, como bem definiu Tom Jobim, nasceu no município mineiro de Juiz de Fora em 23 de abril de 1908, chegando ao Rio de Janeiro aos 12 anos de idade, indo fixa-se no Buraco Quente, em Mangueira. Trabalhando num pequeno bar de um tio, foi se aproximando e se apaixonando pelo samba. Em pouco tempo já integrava a Escola de Samba Unidos de Mangueira (já extinta), indo mais tarde para a própria Estação Primeira, pelas mãos de Cartola. Viveu e cantou o morro e a boêmia. Mais tarde, já fazendo algum sucesso mudou-se para o bairro da Lapa, referência da boêmia carioca aonde veio a falecer, sendo detalhes de sua morte, até hoje, pouco esclarecidas. A mais aceita, é a tese de que foi esfaqueado pelo lendário transformista Madame Satã, vindo a óbito em razão de tais ferimentos. Mas a quem garanta que ele morreu de problemas hepáticos.

Falar da obra de Geraldo Pereira é também falar da vida de Geraldo Pereira. Cronista de sua época e de sua gente.

Nos anos 60, teve duas composições suas: Falsa Baiana e Bolinha de Papel, gravadas justamente por João Gilberto, que ao lado de Tom Jobim, é o maior expoente da bossa-nova e ao contrário de Tom, chegou a conhecer pessoalmente Geraldo Pereira, quando ainda era crooner do conjunto Garotos da Lua. Certa vez Geraldo convidou João Gilberto para ficaram conversando e bebendo num bar do bairro da Lapa. João sempre diz que a música de Geraldo era leve e cheia de divisões rítmicas, que ele fazia esse tipo de música sem ter a menor consciência do quanto era inovador, já nos anos 40.

A Bossa-nova que inclusive está fazendo 50 anos, tem em Geraldo Pereira e em Mangueira sua pré-história, mas isso pouco é lembrado, infelizmente. Além de João Gilberto, Geraldo foi gravado por Moreira da Silva (o antológico Acertei no milhar, em parceria com Wilson Batista); Cyro Monteiro, Aracy de Almeida e outros tantos. Nos anos 60, foi redescoberto por João Gilberto e mais tarde Gal Costa também gravou Falsa Baiana. Mais recentemente teve sambas gravados por Zizi Possi, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Martinho da Vila, João Nogueira e Zeca Pagodinho, que inclusive gravou a hilária: Cabrita mal sucedida. É também de sua autoria: “Sem Compromisso” gravada por Chico Buarque e outros tantos nomes da MPB. Quem não conhece? O próprio Geraldo Pereira chegou a gravar seus sambas com relativo sucesso na década de 1940.

O grande legado desse sambista, cantor e compositor, é justamente a inovação, que lhe dá o status de gênio, colocando-se como um dos principais nomes da música nacional.

Em “ESCURINHA” ele promete a sua amada, lugar de destaque na escola de samba em que é diretor e claro, um barraco no Morro de Mangueira. Já em “ESCURINHO”, lamenta as desventuras de um bom rapaz, enfeitiçado pela praga de uma ex-namorada e que tornava-se briguento e arruaceiro. “Falsa Baiana” ironiza as moças que entram na roda de samba e não sabem dizer no pé. “Ministério da Economia” brinca com as promessa populistas do chefe da Nação. “Cabritada mal sucedida” é a aventura bem-humorada de uma cabritada feita com produto, digamos, de procedência duvidosa…e “Bolinha de Papel” é uma bela cantada e promessa de amor eterno e dedicação (vou ao banco, tiro tudo pra você gastar, posso até ó Julieta, lhe mostrar a caderneta se você duvidar). Esse verso escrito a mais de 50 anos, é de uma riqueza poética, bom gosto e melodia, de uma divisão rítmica que encanta e comove os ouvidos mais exigentes, como ocorreu com João Gilberto. Hoje em dia, isso infelizmente é raridade. Geraldo não era letrado, como a maioria dos sambistas de sua época, soube viver e deixar sua obra para eternidade, pois enquanto houver bom gosto e cantores dispostos a nos brindar com o melhor de nosso cancioneiro, a obra de Geraldo Pereira estará viva e perpetuada. Chegou a ser enredo da escola de samba Unidos do Jacarezinho, que é afilhada da Estação Primeira de Mangueira, com o tema: Geraldo Pereira, a Eterna Glória do Samba. Com esse desfile, a escola venceu seu grupo de Acesso.

Mauro Santos


Em meados de 2008, muito se especulava sobre qual seria o enredo escolhido pela Estação Primeira de Mangueira para o carnaval de 2009. Em uma de suas declarações, a atual presidente da escola, no intuito de tranqüilizar sua apaixonada torcida, declarou num alto e bom tom para todos: A Mangueira está escolhendo o maior enredo de sua história para o próximo carnaval!

Essa afirmação naturalmente faz o mais ilustre e apaixonado mangueirense pensar: Será? O que vem por aí?

Tantos foram os enredos que a verde e rosa levou pra avenida que fica difícil se escolher o melhor enredo da história da Mangueira. Tudo bem que cada mangueirense tenha a sua opinião, que opte por determinado momento, afinal, tantos foram os enredos bem sucedidos, tantas conquistas… Se o mais apaixonado e ilustre mangueirense foi conclamado a pensar sobre o maior enredo da escola, eu, um simples , reles, mas não menos apaixonado que eles “deixei minha mente vagar…”

Parei no ano de 1999… A Mangueira ebulia expectativas… O ano de 1998 nos trouxera um campeonato que há anos era esperado… Motivada, a comunidade da escola, seus diretores, e principalmente a torcida apostavam todas as suas fichas num tema inédito, carismático, histórico e apaixonante. Tudo haver com a escola mais querida. Mangueira vinha que vinha para o carnaval 98.

O samba escolhido era um primor. A gravação estupenda trazia ainda um empolgadíssimo Alexandre Pires e a potente voz do grande mestre. A escola ainda tinha um empolgadíssimo carnavalesco, Alexandre Louzada, que acabara de entrar para o seleto grupo de carnavalescos vencedores (foi carnavalesco do carnaval de 98, Chico Buarque da Mangueira), onde mostrou muita competência e estava de fato enchendo os olhos da nação mangueirense. E ainda tinha uma bateria consistente, um chão forte, um diretor competente (Elmo José dos Santos), e um iluminado Carlinhos de Jesus, que também tinha adentrado ao mundo do samba no ano anterior, e vencido todos os prêmios possíveis com a sua comissão de frente sobre os malandros. Não faltava nada… Mangueira era “pule de dez”, ninguém ousava dizer que a vitória não viria…

Autor(es): Adalberto, Jocelino e Jerônimo


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Ao vivo, direto da Sapucaí


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O desfile começou fazendo o povo chorar… Chorar de emoção… A comissão de frente trazida pela escola propunha uma reencarnação dos mais ilustres sambistas que o mundo já tinha visto… “Sinhô, Ismael, Pixinguinha, Cartola, Noel, Candeia…”, Clara Nunes, Mestre Fuleiro, Donga, Clementina de Jesus, Nélson Cavaquinho… Enfim, todos que realmente mereciam estar ali. E ainda trazia sentado num banco de vime, no seu abre-alas, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Moreira da Silva…

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Considero essa apresentação o maior momento do carnaval brasileiro de todos os tempos. A Comissão de Frente da Mangueira de 1999 é a maior expressão carnavalesca que já passou pela avenida. Dali pra trás, o que viesse seria um marasmo. O Carnaval de 1999 parava ali. Nem precisava de mais nada…

E foi o que aconteceu. Depois daquela apresentação, estranhamente a Mangueira desfilou morna, as suas alegorias era belas sim, porém ofuscadas pelo grande acontecimento inicial. Problemas na sua evolução e harmonia levaram a escola para uma desastrosa sétima colocação (não que merecesse). O enredo, apesar de bem desenvolvido, merecia um pouco mais de carinho e competência do até então inexperiente carnavalesco, que também pecou e errou a mão em algumas alegorias e fantasias.

Fiquei incrédulo com o resultado. Apesar de tantos que souberem quem foi a escola vencedora daquele ano, poucos tomam como referência desse carnaval o seu desfile… E particularmente fiquei muito triste por não poder rever aquela comissão de frente participar do Desfile das Campeãs. 1999 foi o carnaval que a Mangueira não venceu!

Nunca fui a favor de reedições. Acho que limita a criatividade e sufoca o ineditismo. Mas se algum dia, a minha querida Mangueira for refazer um carnaval, que refaça esse e dê a ele um desfile merecedor de respeito, carinho e admiração… Um desfile competente! E que reedite aquela comissão de frente também…

Alessandro Bertea Mendes é mangueirense, convidado pelo Rafa Sampaio para escrever sobre a escola. E se sente muito honrado por isso.


afroA tradicional Feijoada da Familia Mangueirense se realizará neste sábado, como acontece todo segundo sábado do mês. Esta edição, contará com a presença da Banda AfroReggae que está completando 15 anos e apresentará a riqueza musical das comunidades. Ainda terá em sua programação musical, a presença de Partideiro acompanhado do grupo Nação Mangueirense e a presença dos compositores Dhema, Bruno Maia, Luiz Camil e Beto Correia.

NelcyEntre os homenageados desta edição, teremos o jornalista Alberto João do site Carnavalesco e os radialistas Miro Ribeiro, da rádio FM94, Eugênio Leal, da rádioTupi e Loureiro Neto, da rádio Globo. Como já é de costume, a Feijoada será preparada por Dona Nelcy, presidente da Ala das Baianas, para quem não lembra, Nelcy foi parceira de Chico Buarque no DVD Chico e as Cidades, na música Chico Buarque da Mangueira, o marcante fechamento de ouro da obra. Maiores informações na área de Eventos, Ensaios e Feijoadas.



chico_04 Talvez nem ele nem ninguém tenha conseguido descrever O Malandro. A questão é que a palavra já nos remete a algo negativo, sem romance. Alguém acredita nisto? É tudo mentira; o malandro sempre foi uma palavra que exerce certo fascínio, é diferente do vagabundo. O malandro é sinônimo de sucesso com a mulherada, o que a geração “cool” de hoje chama até mesmo de personagem “Cult”, e a de ontem chamava de descolado. Prefiro dizer que Chico é “O CARA”, como uma só palavra. Tudo que envolve o romance da malandragem voltou à moda. O samba, a Lapa, o charme, a flexibilidade, talvez a Navalha tenha sido o único item que ficou démodé, mas eu re-lançaria a moda se fizesse barba.

000001 No sambinha “Lenço no pescoço”, de Wilson Batista, mais conhecido por todos por ter sido cantado por Sílvio Caldas, já em 1933 definia:

Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio. / Sei que eles falam / Deste meu proceder / Eu vejo quem trabalha / Andar no miserê / Eu sou vadio / Porque tive inclinação / Eu me lembro, era criança / Tirava samba-canção

imageAcho que esta visão ainda era a de 33, o malandro a que me refiro é o de anos depois, aquele retratado em 2008 pelo Salgueiro, um malandro mais Rei da Boemia, Carioca, da Lapa. O samba chega a tratá-lo como um patrimônio cultural, mas o ponto alto é que ele é banhado de alegria, tira onda, dá um jeito e a vida é o carnaval. A bateria perfeita, arrebentou a Sapucaí cheia de 10 e uma paradinha com gingado, pra lá de malandro. E talvez este tenha sido o inspirador da Ópera do Malandro.

A questão é que Chico exerce este fascínio. Confesso que demorei a entender o Samba da Estação Primeira de Mangueira de 1998.

“É O CHICO DAS ARTES… O GÊNIO

POETA BUARQUE… BOÊMIO

A VIDA NO PALCO TEATRO E CINEMA

MALANDRO SAMBISTA CARIOCA DA GEMA“

chicomang MALANDRO SAMBISTA? OK, Chico é um sambista entre muitas coisas. Mas malandro? “Garoto da Zona Sul”, filho de pai intelectual, cosmopolita, poliglota. Será que não vi algo em Chico? As coisas começaram a fazer sentido, quando eu estava fora do país e ao sair com uma amiga, ela disse: Rafael, quem é este sujeito cantando? Ele não canta nada! CALMA AÍ… COMO ASSIM? É o Chico Buarque, sou fã do cara, você está ouvindo Construção, uma das maiores obras dele, Cotidiano. Mas aí caiu a ficha, Chico Buarque é um cantor fraco, não tem voz. Mas quem está aí para a voz do cara. A gente gosta é da letra, da música, do violão, do charme, da malandragem, a voz é um mero detalhe. E nisto comecei a ver a malandragem de Chico e resolvi ler mais sobre ele.

chicoviniciustom Chico teve a vida de um garoto longe dos problemas que fazem alguém ser malandro, estudou em bons colégios, morou na Itália, conviveu com intelectuais, poetas como Vinicius de Moraes. Mas a vida dele sempre teve carnaval, e logo veio a malandragem. A primeira aparição do Chico Buarque na imprensa não foi por alguma crônica interessante ou alguma poesia singular, foi por ter furtado um automóvel junto com um amigo para curtir a madrugada paulistana. Chico fora chamado de pivete nas manchetes dos jornais. Talvez ali, as pessoas que leram fizeram pré-julgamentos a respeito daquele “pequeno delinqüente”. Ninguém esperava que naquele ladrãozinho de carro, tinha mais que um malandro, mas um gênio na arte de ser isto.

chico e morenaUma das maiores habilidades do malandro está na flexibilidade. Este é o quesito que Chico domina. Outra importante marca é a fascinação que exerce sobre o sexo oposto. Chico é impressionante neste ponto. Longe de ser um garotão, o malandro que fará 64 anos de idade, é um intelectual, poeta, um cara calmo, e, é claro, tem a qualidade mor do malandro: um charme incontestável pela mulherada. Esta mistura, faz com que meninas já aos 15 anos de idade, comecem a literalmente babar por ele. E ainda depois da separação, Chico é um “senhor solteirão”, dos mais cobiçados. Até mesmo sua traição estampada nos jornais e revistas sensacionalistas, teve charme, as mulheres suspiraram, queriam estar no lugar da nobre-desconhecida-amante. O malandro deu glamour até na pulada de cerca, Chico foi malandragem em cima de malandragem.

A poesia, as crônicas, as marchinhas, as músicas, os livros, as peças de teatro, as participações no cinema, até no futebol, descobri que com tanta coisa, nem sei mais dizer no que Chico é bom ou ruim, ele foi malandro a ponto de me enganar sobre ser uma grande voz. Chico conseguiu com sua malandragem, tirar proveito até do exílio. Foram viagens, parcerias, novas idéias e ideais. Nesta época Chico com elegância ímpar, dava “porrada” de mão aberta na ditadura. O objetivo era não deixar marcas. Genialidade, malandragem?

Chico sempre esteve lado a lado com a Estação Primeira. Participou, ajudou, frequentou, citou, fez a parte dele muito bem e até hoje, mostra seu lado verde-rosa. Sempre declarou que cantar Mangueira é uma honra para ele. E a Manga respondeu à altura: Chico foi sinopse de sobra para o carnaval de 1998. O malandro que é uma ópera com todos os atos, tinha prestígio para ser homenageado em vida, um prazer para poucos. Não satisfeito com isto, o enredo contou tanta história, que acabamos campeões. Um carnaval malandro, com política, artes de todos os tipos, um gingado delicioso e um dois mais simpáticos refrões que a Sapucaí ouviu.

http://odia.terra.com.br/blog/sambaderede/images/marco_2008/Mulheres-de-Chico%20-%20val.JPGAgora, Chico está, como bom malandro, cercado de mulheres. Tem um bloco em sua homenagem, o concorrido “Mulheres de Chico” que desfila no Leblon na noite do sábado de carnaval. Na bateria, mais de 30 mulheres (belas) entre 25 e 35 anos! Chico está bem? Não, Chico está ótimo. TODAS as meninas tocam no bloco por serem apaixonadas por ele, mesmo com o dobro da idade. Um dos DVDs mais disputados das lojas, “Mulheres de Holanda ao vivo”, não é preciso nem falar, não é? É uma mistura de Teatro, Musical, Poesia, Show, malandragem, tudo feito por mulheres. Chico encanta e mesmo assim continua Low Profile. É o charme de quem sabe como tocar a alma feminina e de todos que admiram suas obras. A malandragem de Chico sabe que tem muito a aprender com a malandragem da Manga, uma dupla sinérgica que é um sucesso até hoje.



Foto: Divulgação/Peter Iliciev


A mangueirense Rosemary lançou na quadra de sua escola do coração, o DVD Mulheres da Mangueira, no qual presta uma bonita homenagem as
setenta e sete mulheres que fizeram parte dos 80 anos da história da agremiação.

O projeto tem a participação de Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Carlinhos de Jesus. Sucessos de Cartola, Nelson Cavaquinho e Tom Jobim são interpretados na voz da cantora.

Uma festa com muita emoção que teve a participação da velha-guarda, Depto Feminino, Ala das Baianas e comunidades, além da participação de ritmistas mirins do Centro Cultural Petrobras-Mangueira.

Amigos de Rosemary estiveram presentes para prestigiar o lançamento, entre eles a atriz Íris Bruzzi e o compositor Sombrinha.

O presidente dos Conselhos de carnaval e deliberativo, Celso Rodrigues fez um discurso muito emocionado sobre a importância de Rosemary ao longo da historia e sobre todo o carinho dedicado a Mangueira, entregando uma bandeira comemorativa do aniversário dos 80 anos. O DVD e CD chegarão as lojas do ramo neste mês de junho.