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Já faz tempo que não escrevo, algumas loucuras na vida profissional me deixaram sem tempo. Por outro lado, não queria me precipitar em meio ao furacão, tudo que sei é que a Mangueira está precisando muito. Não estou aqui para falar sobre o carnaval, já encomendei o texto para um colunista, nem mesmo para falar sobre a nova presidência e os novos nomes em Mangueira. Estou esperando a poeira baixar.
Nesses momentos eu prefiro relembrar nossas raízes, nossas tradições. Tenho ouvido muito a Rádio Jequitibá Verde. A Mangueira está precisando se modernizar e isto é tudo que eu peço ao novo presidente. Arrumar a casa e modernizar! O único cuidado que precisamos ter é não deixar que a Mangueira, “escola de samba S/A” perca sua essência. Quando digo isto, não estou aqui para ser utópico. A geração “Bumbum paticumbum prugurundum” não virou o protesto que deveria ser, mostrou apenas o óbvio do que estava acontecendo. O samba evoluiu, o carnaval idem, dor para os tradicionalistas como eu, mas que não seja modernista, mas vanguardista.
Havia me prometido foco total. Todo o trabalho que faria, além do meu trabalho, seria em prol do carnaval mangueirense. Uma das atividades que tenho fora da minha labuta é esta humilde página. É claro que nem uma vírgula entrou aqui desde que fiz a convocação. O único erro é que eu demorei demais para achar tempo para fazer a convocação a todos vocês, leitores, que eu venho emocionadamente agradecer. A Mangueira pediu ajuda e lá estávamos!
Engraçado sofrer de ressaca antecipada. Assim é a sensação para aqueles que acompanham de perto a elaboração do carnaval. Cada nova notícia que aparece na mídia, cada novo comentário feito por um amigo, nos instigam como se se tratasse de uma incrível tese de doutorado ou ainda de uma descoberta científica inusitada, a salvação do mundo, do nosso mundo de carnavalesco apaixonado… Uma crítica, mesmo que fundamentada, nos dói como se estivessem xingando nossa mãe… A verdade nos parece ser a maior calúnia, injúria das mais absurdas, enquanto, no silêncio da nossa consciência, aceitamos e concordamos com o inquestionável dos fatos… Os preparativos para a grande festa nos tomam as os dias, as horas, os segundos do pensamento, como se fosse nosso próprio casamento, ou ainda, o aniversário de quinze anos de nossa primeira filha mulher…
Assim sinto-me eu, ao acompanhar – nem tão de perto assim, pois moro em São Paulo – a minha Estação Primeira.
Desde a escolha do enredo, da escolha daqueles que irão levantar e acenar com a bandeira da possibilidade de um campeonato ganho, à pesquisa dos figurinos, das alas, o desenho dos carros e das alegorias, a unidade da história e a relevância do que vai ser contado da forma mais bela e atrativa, somando brincadeira e arte, tradição e ousadia… até a seleção do samba enredo, ah a escolha do melhor samba, entre tantas lindas melodias, harmonias perfeitas, letras de total poesia, a difícil missão não de escolher um, mas de eliminar um samba a cada apresentação na quadra… Tudo nos angustia. E dá-lhe ressaca!
Enredo e samba escolhidos, a aflição diária de saber se tem ou não tem verba suficiente – minha Mangueira que, de evento em evento, feijoada em feijoada, recolhe suprimentos para a elaboração de um belo desfile – para um desfile que seja digno da primeira estrela do samba brasileiro, que esteja à altura dos milhares, senão milhões de fãs e torcedores incondicionais que angariou nesses tantos anos pelo Brasil e pelo mundo… um desfile que continue honrando o privilégio de ter sido fundada por gênios da música brasileira, de ter em sua página de celebridades, grandes nomes de todas as áreas da cultura, incontestes homenageados, enfim, um desfile que nos faça caminhar de cabeça erguida e dizer: Sou Mangueira!
Primeiro ano que visito o Palácio do Samba, desde a época da escolha do samba. Enredo perfeito, especialmente para mim, historiadora, ver contada na avenida a odisséia, a incrível viagem de Darcy Ribeiro pelo nosso Brasil, nos mais de trinta anos que o autor levou para escrever e lapidar divinamente o seu livro “O POVO BRASILEIRO”, numa mostragem fiel do que é nosso diverso país, território onde cabe caboclo, negro, índio e estrangeiro se relacionando e formando pouco a pouco a nossa tão nova tradição de pouco mais de 500 anos, o que para a História Universal é apenas um breve suspiro de tempo… mas que para nós, brasileiros, é nossa mais profunda origem!
E, como diria João Guimarães Rosa, “O sertão é o mundo”, posso garantir que, para nós, legião de discípulos de Cartola e de Carlos Cachaça, “A Mangueira é o mundo”, um verdadeiro universo onde situamos nossa estada social no planeta, palco onde acontece o espetáculo diário da vida, da luta cotidiana por estabelecer-se dignamente, seja através dos projetos de inclusão social através do esporte, da música, do teatro, seja simplesmente pelo fato de resistir às adversidades que esse Brasil tão injusto nos impõe o tempo todo, seja pelas dificuldades em se ter uma morada decente, um trabalho digno ou suas escolhas, das mais simples, respeitadas sem preconceito ou discriminação.
Mas estou temerosa. Tanto quanto a alegria invade o meu coração verde-rosa, a ansiedade por ver um belo desfile, frente aos atrasos na elaboração dos carros alegóricos – fato recorrente – me faz temer as bodas da minha escola… Minha debutante parece um pouco acanhada, a música para a valsa é a mais linda de todo o baile, mas seu par perfeito ainda não se apresentou… Minha escola do coração e da alma parece uma noiva sem vestido.
Por isso, vou tomar mais uma dose de esperança, vou ouvir mais uma vez o lindo samba, rezar pelos anjos que sobrevoam o céu da Cidade do Samba, para que eles abram suas asas mágicas e deixem espalhar pelo barracão luz, energia criativa, senso de responsabilidade e dedicação, capricho, agilidade e especialmente muito amor em cada trabalho feito.
Vou também, enquanto me embriago de poesia, fechar os olhos e escolher em pensamento só agulhas de ouro para a confecção das fantasias, das roupas da bateria, das comissões, para que as costureiras sejam mágicas, fadas a tecer o santo sudário da minha Estação Primeira e que das suas mãos encantadas saiam borboletas verde-rosa a sobrevoar as saias da Ala das Baianas…
Agora, bêbada novamente de amor e fantasia, vou preparar meu coração para mais um dia… Salve, minha Mangueira!
Rita Alves
“Todo o tempo que eu viver
Só me fascina você
Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude
Mangueira
Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E no fim deste labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue nas veias”
(Fiz por você o que pude – Cartola)
Se a bateria é considerada por muitos como sendo “o coração” de uma escola de samba, não há como negar que os compositores devem ser considerados “a alma” das mesmas escolas, porque são eles os responsáveis principalmente pela melodia e pelas letras das músicas, ingredientes indispensáveis para a realização de um bom carnaval.
Os últimos dias na Estação Primeira de Mangueira foram trágicos. Em uma semana o falecimento de dois importantes baluartes chocou todos os mangueirenses. Parece que o ano de 2009 será um ano de renovação total e este luto no início do ano, pode ser o maior símbolo destas mudanças. Além do novo presidente de Honra, Roberto Paulino, este sim um feliz símbolo de mudança.
Foram Moacir Cardoso de Abreu, o Melão, com 77 anos, faleceu de enfarte, e Olivério Ferreira, o Xangô, aos 85 anos, de infecção renal crônica agravada pela diabetes.
Preconceito contra sambistas vem à tona depois do drama vivido por Nelson Sargento
Falar de Nelson Sargento é falar de um cara extra-série, é falar de uma lenda viva do samba. Só pra quem desconhece (o que eu acho difícil) Sargento é contemporâneo de Cartola, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Foi ele quem introduziu a ala dos compositores da nossa querida Mangueira nos anos 50. Durante toda a sua carreira teve seu nome ligado à escola sendo autor de cinco sambas-enredo. O apelido “Sargento” veio nos tempos que serviu o exército. Seu maior sucesso “Agoniza Mas Não Morre”, foi lançado em 1978 por Beth Carvalho e tornou-se um hino de resistência da cultura do samba carioca. Isso sem falar em “Esquisito”, “Falso Amor Sincero”, “Vai Dizer a Ela” (com Carlos Marreta), “Nas Asas da Canção” (com Dona Ivone Lara). Além de gravar discos no exterior nos anos 90 e atuar em filmes, esse nobre do samba ainda é escritor e pintor primitivista, atividade que aprendeu graças à profissão de pintor de paredes, exercida por vários anos. É, e se eu falar que um cara dessa linhagem, aos 82 anos, está esquecido pelo mercado e vive grave dificuldade financeira, sem contratos para shows, sendo obrigado a vender suas telas para sobreviver, você acreditaria ?
Pois bem, essa é a situação atual de Nelson Sargento. Fiquei estarrecido ao ler uma matéria nos jornais sobre o drama vivido por esse poeta do samba. É revoltante, para todos nós que vivemos de música, saber que um profissional que se dedicou de corpo e alma para elevar o nome do samba, esteja esquecido por aí como uma pessoa qualquer. O mercado não pode dar às costas em nenhum momento. Nelson é um batalhador e não pode vender quadros para pagar despesas. As autoridades públicas deveriam se manifestar, pois sambistas como Nelson Sargento, Jamelão, Monarco, por exemplo, são patrimônios históricos da música. É preciso intervir rapidamente, antes que isso venha virar um efeito dominó.
Já soube inclusive que um desses bambas (Jamelão) praticamente foi obrigado a mudar-se para São Paulo, onde recebia três vezes o cachê de cerca de R$ 1.500 que lhe ofereciam no Rio. Será que depois de tudo, com problemas de saúde, um imortal do samba ainda teria que se submeter aos caprichos do mercado? Está na hora das autoridades, sejam elas do meio musical ou não, criarem mecanismos que venham evitar que fatos lamentáveis como esse aconteçam.
Começo a acreditar que a mídia não tem o mesmo interesse pelo samba como tem pelo pop, pelo rock, pelo sertanejo. Não vejo quase o gênero tocar no rádio e patrocinadores não se interessam muito. Meus amigos, o samba rendeu os melhores índices do mercado. Não podemos rejeitar um movimento tão rico e tão cheio de relíquias. Está na hora de parar, sentar e analisar uma forma dessa bandeira voltar a sacudir de vez. Querem levar o samba pro fundo do poço? O drama que Nelson Sargento viveu – se Deus quiser vai ser reerguer – é apenas a ponta do iceberg do que vem acontecendo nesse mercado. Enquanto imperar a hipocrisia, o preconceito e a desigualdade nada vai mudar. Vamos dar vida longa a quem ajudou a construir a história da música de forma digna e soberana.
Thaynan Leal


