Archive for the ‘Textos de Leitores’ Category
TEXPO POR: ALBERTO LEMOS
Em tempos em que a humanidade vive o início de mais uma epidemia de influenza, sempre lembramos de várias outras epidemias que vitima(ra)m os humanos, como a peste negra, a varíola, a aids e a própria influenza por outras ocasiões. Tais epidemias, eventualmente atingindo o cunho de pandemias, foram extensamente estudadas, e hoje se sabe que são frutos da interação da natureza com a sociedade controlada pelo homem, que se torna automaticamente responsável, pelo menos em parte, pela existência de tais fenômenos. Mas o que isso tem a ver com a Mangueira? Read the rest of this entry »
POR: Carlos Oliveira (mumu)

Nasci e vivi boa parte da minha infância no morro de Mangueira, mais precisamente na localidade conhecida como “Olaria”, que apesar de ficar do ladinho direito da quadra, é muito pouco falada e quase nunca citada nas musicas e sambas que conhecemos, muito provavelmente por ter como vizinho o famoso “buraco quente”. Mas, pra defender o “meu lugar”, sempre cito que foi lá que morou o falecido Tio Jair, uma das pessoas mais queridas que a Mangueira já teve e sua casa ficava quase em frente à casa do maior mestre-sala de todos os tempos, o grande Mestre Delegado, que tinha como vizinho um dos mais antigos presidentes da Mangueira, o Seu Chico Porrão, casa esta que tive o prazer de freqüentar e foi onde comecei a curtir os ensaios da Mangueira, ainda que de forma indireta e vou explicar por que: A casa de Seu Chico e a de Mestre Delegado são vizinhas “de parede” com o Palácio do Samba e na época, o muro era baixinho e de cima de um jirau estrategicamente colocado ali, curtia-se muito bem o samba e como meus pais são amigos de infância das filhas de Seu Chico, e eu era pequeno demais pra ficar na quadra, íamos todos os sábados pra lá. Read the rest of this entry »
Hoje é um dia muito especial para senhores e senhoras da Estação Primeira de Mangueira. São 53 anos de glória que estão gravados no coração Mangueirense. Mesmo na terceira idade, estes são mais jovens do que muitos, eles possuem uma alegria de viver no qual é impressionante.
Em 2008 tive a oportunidade de ir a um show da Velha Guarda. É impressionante a simpatia com que eles tratam as pessoas, cantando sambas imortais da história Mangueirense, fizeram um show digno de Estação Primeira de Mangueira. Sempre com um sorriso no rosto e sua alegria de viver, interpretam sambas como “SEI LÁ MANGUEIRA”, “AGONIZA MAS NÃO MORRE”, “ALEGRIA” e muitos outros sucessos.
Tia Zélia com mais de 80 anos ainda tem energia para dar e vender, durante o show ela rebola e o público vai ao delírio. Infelizmente com o passar do tempo o mundo do samba vai perdendo personalidades, é normal, faz parte do ciclo da vida, mas é importante que as diretorias das escolas de samba em geral, valorizem as suas comunidades, pois estas desempenham o papel de guardar a grande relíquia que é o samba, no qual está se perdendo com o passar do tempo. Portanto a musica de Nelson Cavaquinho traduz perfeitamente o pensamento destes senhores que fazem parte de uma linhagem rara de sambistas:
“Em Mangueira, quando morre
Um poeta, todos choram
Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer
Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço que alegra a gente
Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro ou de um tamborim…”

Muitos dos integrantes da Velha Guarda são discípulos de Cartola, Padeirinho, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, e muitos outros que dão orgulho a um coração mangueirense. Voltando a história do show que eu tive a oportunidade de ver, fiquei perguntando-me como estes senhores tem tamanha disposição para dedicar-se à música e ao trabalho de uma velha guarda. Olhei para o lado e avistei um sambista de mais ou menos 70 anos, cheguei perto dele, e perguntei-lhe se ele era mangueirense, imediatamente ele respondeu que não, sua paixão era a Portela, mas que a Mangueira era sua amiga. Depois ele tirou a carteira do bolso e me mostrou a sua carteirinha de sócio da Portela. Naquele momento percebi que aquela paixão que o movia era a mesma da minha, e igual a dos integrantes da velha guarda, uma paixão única, que envolve o mundo do samba.

Portanto gostaria de desejar parabéns a todos os integrantes, Josimar (Produtor da Velha Guarda). Lembrando também que não é apenas a VELHA GUARDA SHOW DA MANGUEIRA, mas todos aqueles senhores e senhoras, que de alguma forma contribuíram para a brilhante história Mangueirense, que orgulha essa nação!
Obrigado por existirem, por terem sempre retratado tão bem a história do samba.
PARABÉNS!!!!!
Matheus Maciel
Por: Eduardo Telles
Como é bom estar de volta, retornar ao solo sagrado de um sambista, mais ainda, a quadra da Estação Primeira de Mangueira. É como sempre uma oportunidade sem igual, sem dúvida um dia de muita alegria e cheio de emoções, e claro com uma feijoada que foi capaz de fazer fila. Foi para a primeira feijoada oficial aberta ao público uma festa bem popular, com um clima de ensaio pré-carnaval dos dias de sábado.
Como havia sido previsto, a Feijoada começou com homenagens. Sambas de Jurandir deram início a feijoada, recepcionando nós Mangueirenses do jeito que mais gostamos, com sambas da casa, as pérolas. Os primeiros que chegavam se adiantaram em comer a feijoada, gerando depois um grande problema, como alguns ingredientes que ficaram faltando e demoraram a serem repostos, como o arroz, por exemplo, e começaram a se formar filas, em até certo ponto aceitáveis, mas chegando a um ponto inaceitável e isso futuramente não pode se repetir. Quanto ao preço, muitos podem achá-lo caro, mas antes você entrava e o preço dava direito a comer uma única vez. Agora o preço é maior, porém inclui uma camisa confeccionada e o direito de repetir a comida. Podem achar que está cara, dizer até que nem todo mundo gosta de feijoada, mas se você pensar só na camisa e a entrada na quadra, ainda assim ela está barata, além do que você está na Mangueira, acho importante valorizar a nossa escola.
Um compositor marcou presença, cantou e encantou… Nelson Sargento. Sua presença é algo muito positivo, pois homenagear artistas da escola e ter alguns dos seus cantando para nossa nação é um sinal de respeito e valorização da própria escola, é como dar força as nossas raízes. Espero que isso volte a ser valorizado, que tenhamos a oportunidade de ver a velha guarda em um próximo evento e até mesmo nossos compositores sentindo novamente o prazer de se fazer sambas de quadra, sambas que exaltam a própria escola.

Um pouco mais tarde subiram ao palco os três “tenores” Luizito, Rhichhas e Zé Paulo, novamente vestidos com o smocking preto, diga-se de passagem um certo exagero, pois para três sambistas não tem nada a ver com nada, mas tudo bem, vamos ver que tipo de benefícios isso resultará. Durante a apresentação dos tenores, foi visivel um desencontro entre os cantores, Rhichhas parou de cantar e ficou em destaque Zé Paulo manteve o samba e Luizito falava com o pessoal da mesa, parecia ser problemas no som. Luizito se dirigiu ao Rhichhas como que incentivando-o a cantar, eu percebi ele dizendo: “vê agora vê se melhorou”. Era realmente problemas com o som. O fato seria simplesmente um problema no som se não fosse a postura do Rhichhas, se manteve com o semblante fechado , como quem não tivesse gostado. Espero que não tenha sido apenas vaidade perante os colegas de palco e que a Estação primeira realmente tenha realmente “três tenores”.Esse foi um momento dedicado a homenagear o Mestre Jamelão e Jurandir; sambas enredos foram cantados intercalando os cantores, resultando em um belo espetáculo. Os sambas foram CANTADOS, o Zé Paulo mostrou a sua competência e surpreendeu cantando lindamente o samba supercampeão de 1984 – “Yés nós temos Braguinha”. Uma pessoa ao microfone nos fez relembrar cada carnaval que seria cantado. Após os sambas, familiares de Jurandir agradeceram a homenagem.
Os momentos seguintes marcaram definitivamente esta festa; subiu ao palco o intérprete Sobrinho, que estava demasiadamente emocionado.
O cantor que há muitos anos possui grau elevado de miopia e com o passar do tempo vem perdendo a visão, fato que o motivou a procurar ajuda. Segundo o próprio Ivo essa homenagem estava programada para a primeira feijoada, na qual se deu a cerimônia de posse, no entanto um problema na portaria impediu o cantor de entrar na quadra. O cantor, ao lado do presidente, recebeu a noticia de que através da escola ele fará a operação para a correção da miopia. Essa foi sem dúvida mais que uma homenagem, foi um grande presente proporcionado pela sua escola, que como ele mesmo disse a escola do seu coração. E não foi só a emoção do Sobrinho que marcou aquele momento, cantando brilhantemente, soltou o vozeirão que lhe é peculiar. Enxerguei nele a pessoa que talvez seja a mais próxima do Mestre Jamelão, respeitando o samba e cantando de forma cadenciada. Muitas pessoas se emocionaram ao vê-lo cantar sambas muito antigos junto de integrantes da bateria, pedido feito por ele ao Ivo, entre estes foram: “Imagens poéticas de Jorge de Lima”, “Lendas do Abaeté”, “Recordações do Rio Antigo”, sambas que hoje em dia não são mais cantados nos ensaios, mas que surpreenderam a todos na quadra, mostrando que esses sambas devem continuar a serem cantados, mas para isso o samba precisa ser respeitado, sem exageros.
Momentos mais tarde Arlindo Cruz se apresentou, foi a chance para quem ainda queria chegar à quadra conseguir entrar e rapidamente os espaços que restavam foram ocupados e a quadra lotou. O público se aproximou do palco e cantou todas as músicas. Arlindo é um cara que valoriza as escolas, respeita as coirmãs e ajuda como pode. É preciso tirar o chapéu para ele, eu tiro o meu.
Leandro Sapucay também esteve presente, embora eu ache que já não tem nada a ver com samba, prestigiou a escola e conseguiu um bom retorno dos Mangueirenses.
O momento triunfal estava chegando, os ritmistas se organizaram no palanque, todos com a camisa SURDO UM, que para mim é um nome muito mais apropriado para nossa bateria, passistas se posicionaram aguardando apenas que terminasse a participação da velha guarda da escola Vai Vai de São Paulo, que infelizmente mais uma vez serviu para o descanso de muitos aguardando a nossa bateria.
Eis que a bandeira Verde-e-Rosa foi aberta para todos vissem nossa bateria no palanque e o rufar do seu tambor ecoasse na comunidade de Mangueira. Não há e nem pode haver como mangueira não há… Foi visível a euforia que tomou conta das pessoas quando a bateria começou, foi descomunal, o clima mudou repentinamente. Os três tenores voltaram ao palco e cantaram novamente sambas de enredo, mas dessa vez em ritmo mais forte pro povo acabar de vez com o jejum de quatro meses desde o carnaval. A bateria mostrou sintonia perfeita, como costumo dizer, o surdo da nossa bateria é capaz de fazer soar em nós Mangueirenses a resposta que não existe no próprio instrumento. Para finalizar a festa, os ritmistas tiveram que descer do palanque para a quadra e ir até a rua, pois senão ninguém iria embora. Esses mesmos ritmistas que continuam fazendo a diferença nessa bateria, pois batucar todo mundo sabe, mas samba como em Mangueira não existe igual.
A nova diretoria esta de parabéns, olhando na quadra não se saberia dizer quem era diretoria e quem não era. Essa era a ideia, todos iguais e sem diferença. O próprio Ivo foi um verdadeiro anfitrião, esteve em todos os lugares participando de todos os momentos daquela festa e no final esteve no meio do povo como um folião, mostrando que não está de brincadeira e que vai atingir o objetivo de todos: resgatar de volta o respeito à nossa escola. A Estação Primeira de Mangueira será novamente a pioneira, podem esperar.
Até a próxima !!!!! Eu estarei lá, e você ?????
Eduardo Telles
Por: Rita Alves
“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Lavoisier – 1743*1794)
Interessante acompanhar as transformações pelas quais vem passando a Mangueira. Fui uma das que vivenciou a crise passada, a transição de diretoria, a escolha dos nomes para formar o corpo diretivo, a equipe brava e guerreira que teria a difícil missão de superar o caos em que foi deixada a quadra, os cofres, a auto estima do Mangueirense, enfim, a tarefa de reconstruir a nossa escola deixada em ruínas.
Mas nós, seres humanos, temos a estranha capacidade de destruir e reconstruir, como se em nós habitasse divindade e crueldade, simultaneamente.
Somos capazes de olhar a realidade com espanto, para que este espanto nos empurre a tomar atitudes, a agir no sentido de transformar a situação. Caetano Veloso já prenunciou, em sua música “Fora de Ordem”, a triste situação do nosso Brasil, tão semelhante a diversas realidades de países em desenvolvimento: “ Aqui tudo parece / que era ainda construção / e já é ruína /Tudo é menino, menina / No olho da rua / O asfalto, a ponte, o viaduto / ganindo prá lua / nada continua”, e assim, vemos que aquele que recebe em suas mãos o inigualável patrimônio cultural e social que é a ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA, deveria ter, por respeito às próprias tradições, à memória dos seus antepassados, à toda a comunidade que se empenha e trabalha pela escola, um mínimo de consciência coletiva e não deixar debandar a administração… Não deixar a nossa amada Mangueira em ruínas.
Infelizmente, nós também temos uma constante insatisfação com a realidade, sem nos apercebermos da grandiosidade de cada um dos detalhes que nos cerca, nos tornamos pessimistas, pouco construtivos e alienados… Precisamos, a cada dia, buscar na mesma realidade algo que nos alimente, que nos inspire e nos estimule a seguir. Fernando Pessoa, em seu poema A Espantosa Realidade das Cousas, nos chama a atenção para isso: “A espantosa realidade das cousas / é minha descoberta de todos os dias. / Cada cousa é o que é, / E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, / E quanto isso me basta”.
“Bastar” não significa acomodar, aceitar a dura realidade e ficar na mesmice, mas partir desta base de realidade, que é a RIQUEZA DA HISTÓRIA DA MANGUEIRA e superar as dificuldades, romper com o caos, com base no sólido passado de conquistas e ganhar o novo, o prêmio, a taça, o troféu da transformação.
É fato que Ivo Meirelles e toda a sua equipe estão hoje num carrossel de batalhas diárias; quem tem acompanhado a atual gestão pode confirmar que há um constante exercício de criar novidades, de gerar idéias que transformem a realidade da Mangueira em algo que orgulhe a cada um de nós.
Uma grande movimentação da equipe nos dá a garantia de que as coisas caminham para a reconstrução do que efetivamente representa a Mangueira, ou seja, escola que está muito além de ser apenas uma escola de samba. Seu compromisso com o social e cultural, a produção constante de novos talentos, a capacidade de ser a escola da diversidade, de agregar em seu espaço as mais diversas tendências musicais, sociais, enfim, como se fosse uma pequena mostra do que é o caldeirão cultural brasileiro.
A escolha do enredo não poderia ter sido mais acertada: falar daquilo que mais nos orgulha como mangueirenses e como brasileiros: A MÚSICA DO BRASIL. Contar a trajetória da música brasileira obrigatoriamente passa pela musica produzida nas mesas e barracões que circundam o morro da Mangueira. Sem contar que esteticamente o samba ganha lirismo com Cartola, associa harmonias nunca antes vistas num samba, tornando alguns sambas verdadeiros clássicos da composição nacional.

Somos, nós da Mangueira, bravos guerreiros, não nos acovardamos diante das tragédias que a vida nos impõe… Como na peça de teatro “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, onde o personagem, num momento de desespero tem à sua frente duas opções:
“— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?
— Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida”

Cildo Oliveira -2008
Título da obra: Kayapó-Xikrin- Genipapo
Papel Manufaturado – 60 x 160
Ontem estive no atelier de um artista chamado Cildo Oliveira. Ele constrói papéis, folhas feitas de argila, tinta, fibras… E uma dessas folhas trazia a reprodução de alguns desenhos (inscrições) das costas de uma índia. Logo pensei: ele recriou desenhos milenares e fez o novo. Recriou o novo. A eterna metamorfose que a arte, a música são capazes fazer. Logo associei à Mangueira. A nossa recriação (e vitória) diária, que nos trará o novo.
João Cabral já disse que a vida é severa, “Severina”, mas nós, felizmente, saltamos para dentro da vida…
Hoje o mundo do samba está em festa;
81 anos a recordar;
Alegrias e glórias a relembrar.
18 vezes fomos campeões;
O prêmio estandarte do amor.
Paixão por ti Mangueira;
Estação Primeira.
Verde tu és esperança;
Rosa que embeleza meu jardim.
Na felicidade sem fim;
Encontrei em ti a razão de meu viver.
Coração bate forte;
De lágrimas meus olhos enchem.
Da escultura fixada no morro;
E seus barracões de zinco.
Baluartes construíram;
A que agora é a mais querida do planeta.
Parabéns pra você, minha escola querida, muitas felicidades e mais títulos pra conquistar.


