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bethchora O ano de 2007 foi um dos mais conturbados na longa história da Estação Primeira de Mangueira. O desfile, com um enredo em homenagem a Língua Portuguesa, desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes foi muito bom. A escola ficou num honroso terceiro lugar, mas o que mais é lembrado no entanto, foi um episódio, confuso e mal explicado com a cantora Beth Carvalho, mangueirense de longa data, sendo impedida de desfilar num carro alegórico. Independente de quem tenha tido razão, a verdade é que esse episódio é o marco de um ano inegavelmente atribulado.

No centenário do compositor e fundador da escola Cartola que se daria no ano seguinte, a escola que completaria 80 anos, de maneira polêmica, preteriu fazer uma homenagem a si mesma e a um dos seus mais ilustres fundadores para fechar um acordo com prefeitura municipal de Recife (PE) e contar a saga do frevo, ritmo carnavalesco que também comemoraria seu centenário em 2008.

tuchinha Um enredo interessante, acabou sendo mal recebido por parte da escola e principalmente no meio artístico e intelectual, que sempre prestigiaram a escola. Isso não bastasse, um outro episódio foi ainda mais dramático. A presença do presidente da agremiação, o Sr. Percival Pires, no casamento de um conhecido, senão, o mais conhecido traficante do país! Por ingenuidade ou não, tal presença desencadeou um tremendo mal estar na escola e na sua relação com a sociedade. A maldade alheia, a língua ferina de muitos e a pouca compreensão dos fatos foi o que mais se viu naquele momento, reforçado por mais dois episódios desagradáveis: A presença de policiais federais no morro e na quadra da escola e também o fato do samba-enredo vencedor, ter entre outros, a assinatura de alguém que cumpria liberdade condicional justamente por envolvimento com o tráfico de entorpecentes. Até mesmo o prefeito do Rio de Janeiro, Sr. César Maia, o qual deveria estar mais preocupado com a sua desastrosa administração, tratou de tirar uma “casquinha” da escola em seu blog na internet. Louve-se nesse episódio um texto do Juiz Siro Darlan, em defesa da escola e de seus projetos sociais.

De qualquer forma, enredo e sambas escolhidos, ainda ocorreu a polêmica escolha da rainha de bateria, feita pelo então presidente da ala e mestre, Ivo Meirelles, que teve interrompido seu competente trabalho a frente da bateria, por causa de desentendimentos em um ensaio técnico. Em conseqüência do episódio do casamento, o então presidente da escola renunciou, assumindo a vice-presidente, Sra. Eli Gonçalves, a Chininha, filha de uma das mais significativas mulheres da história mangueirense: Dona Neuma.

mspb08marquinhosgiovana Chininha, vice-presidente em duas gestões, pessoa discreta e conhecedora de vários segmentos da escola e do morro aonde foi criada, assume a presidência no meio desse vendaval, tendo que trazer um novo mestre de bateria, optando por Taranta, responsável pelo Estandarte de Ouro em 1990. Depois de tudo isso, muito não se podia esperar do desfile da escola, senão a garra de sua comunidade. Isso, de fato não faltou, fazendo-se aqui, uma homenagem aos ritimistas da escola e ao casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marquinhos e Geovanna, responsáveis pelo estandarte verde-rosa, tendo recebido notas máximas dos jurados. Ocorre que um forte temporal desabou no momento em que a escola iniciava seu desfile e somente a superação de cada um, evitaram um cortejo desastroso. Nem mesmo a Comissão de Frente, sempre garantia de nota máxima, sob a batuta do coreógrafo Carlinhos de Jesus e nem as alegorias confeccionadas pelo experiente Max Lopes funcionaram naquela madrugada de segunda-feira.

A colocação da escola – Décimo-lugar- foi uma das piores de toda a história, mas felizmente a quarta-feira de cinzas deu a todos os mangueirenses um certo alívio….as cinzas de um carnaval representavam no coração de cada um, o renascimento das esperanças de um novo tempo, uma novo ano, um novo carnaval. O ano-novo das escolas de samba, começam exatamente na leitura da ultima nota na apuração de quarta-feira e o ano-novo da Mangueira estava ali começando, afinal, esse não foi o primeiro e também não será o ultimo. Somos Jequitibá, árvore gigantesca, frondosa e de raiz profunda.

A contratação de um novo carnavalesco – Roberto Szanieck – vindo da Acadêmicos do Grande Rio e de uma nova coreógrafa – Janice Botelho – são prenúncios de uma Mangueira com uma nova cara, sem dúvida, mais leve e feliz que a do carnaval passado.

Cabe a eles, o desafio de trabalharem na mais popular e tradicional escola de samba do Brasil, que ao mesmo tempo tem o compromisso de manter seus fundamentos e tradição e em contra-partida mostrar grandiosidade e a ousadia necessária nos dias de hoje, pelos padrões impostos pelos “comandantes” da festa.

O samba, composto por Lequinho, Gilson Bernini, Gusttavo Clarão e Jr Fionda, para o enredo – “A Mangueira Traz Os Brasis do Brasil Mostrando a Formação do Povo Brasileiro.” – escolhido pela diretoria através da sugestão de um internauta e baseado na obra do antropólogo Darcy Ribeirto, que nunca escondeu em vida, sua simpatia pela escola, é dos melhores da safra de 2009. Tem todos os ingredientes necessários para embalar o desfile da escola: É empolgado, tem perfeita narrativa do enredo, uma melodia fluente e alegre, ou seja, é um samba acima da média que dará plenas condições a cada desfilante de o entoar com garra, pisando forte na Marques de Sapucaí na madrugada de terça-feira de carnaval.

O barracão da escola já iniciou seus trabalhos, as fantasias já foram apresentadas….Mestre Taranta está em árduo trabalho, principalmente nos fundamentos de cada instrumento, enfim, a Mangueira está de novo, se preparando para oferecer ao público na avenida ou pela televisão, um carnaval de primeira linha, um carnaval campeão.

Correções na harmonia da escola, uma melhor coesão no canto, a começar pelo intéprete Luizito é fundamental para se fazer um desfile no nível que todos esperam da escola.

Uma cobrança mais firme e efetiva em cima de cada desfilante, sejam de alas comerciais ou da comunidade, é outro ponto também fundamental. Precisa a Mangueira ter uma direção de carnaval mais firme, presente, exigente. Precisa a Mangueira ter em sua direção, corações e mentes abertas, que coloquem a escola acima de suas vaidades, que coloquem a razão acima da paixão.

Verde e rosa, segundo Cartola, representam a Esperança e o Amor. Essa é a cara da Mangueira e não por acaso, a marca registrada do povo brasileiro. Aliás, nenhuma, senão a mais querida de todas, é que pode com toda autoridade, mostrar a verdadeira cara do Brasil, através de seu povo. Enfim, como diz nosso hino pra 2009, “a voz do samba é verde-rosa e nem cabe explicação” ou então aquele velho samba: “Cuidado que a Mangueira vem aí e é melhor se segurar, porque a poeira vai subir”!



geraldo pereira 2 1619361 Mangueira, o berço da Bossa“Aqui nasceu a bossa-nova!” A frase pronunciada por Tom Jobim, não se referia a nenhum local na Zona Sul do Rio de Janeiro, mas sim a outro, um pouco mais distante, mais precisamente o Morro de Mangueira.

O maestro e compositor, Antônio Carlos Jobim sabia bem o que falava, já que é considerado um dos “pais” do movimento que saiu do Rio de Janeiro para o mundo, sendo talvez o mais bem sucedido movimento musical brasileiro, em termos de projeção internacional.

Tom Jobim disse isso, em 1992, quando pisou no Palácio do Samba, quadra da Estação Primeira de Mangueira, às vésperas do carnaval em que seria homenageado pela verde-rosa.

Os mais desavisados ficaram surpresos com a declaração de Tom, sem entender bem o que ele queria dizer, achando talvez que fosse uma forma educada de agradecer à escola, pela homenagem que lhe era prestada. Mas esse agradecimento, ele fez em forma de canção: Piano na Mangueira, em parceria com Chico Buarque.

A declaração do maestro se referia, porém, a outro mangueirense, igualmente genial, mas de certa forma, pouco conhecido: O compositor e cantor Geraldo Pereira. Pessoalmente, coloco Geraldo Pereira no mesmo patamar de Cartola e Nélson Cavaquinho, formando o que se pode chamar de Santíssima Trindade do samba mangueirense. Geraldo, porém, tem o diferencial do pioneirismo, que aliás, é sempre uma marca registrada das coisas de Mangueira.

Considerado o criador do samba sincopado, ou seja, o criador da bossa-nova, como bem definiu Tom Jobim, nasceu no município mineiro de Juiz de Fora em 23 de abril de 1908, chegando ao Rio de Janeiro aos 12 anos de idade, indo fixa-se no Buraco Quente, em Mangueira. Trabalhando num pequeno bar de um tio, foi se aproximando e se apaixonando pelo samba. Em pouco tempo já integrava a Escola de Samba Unidos de Mangueira (já extinta), indo mais tarde para a própria Estação Primeira, pelas mãos de Cartola. Viveu e cantou o morro e a boêmia. Mais tarde, já fazendo algum sucesso mudou-se para o bairro da Lapa, referência da boêmia carioca aonde veio a falecer, sendo detalhes de sua morte, até hoje, pouco esclarecidas. A mais aceita, é a tese de que foi esfaqueado pelo lendário transformista Madame Satã, vindo a óbito em razão de tais ferimentos. Mas a quem garanta que ele morreu de problemas hepáticos.

Falar da obra de Geraldo Pereira é também falar da vida de Geraldo Pereira. Cronista de sua época e de sua gente.

Nos anos 60, teve duas composições suas: Falsa Baiana e Bolinha de Papel, gravadas justamente por João Gilberto, que ao lado de Tom Jobim, é o maior expoente da bossa-nova e ao contrário de Tom, chegou a conhecer pessoalmente Geraldo Pereira, quando ainda era crooner do conjunto Garotos da Lua. Certa vez Geraldo convidou João Gilberto para ficaram conversando e bebendo num bar do bairro da Lapa. João sempre diz que a música de Geraldo era leve e cheia de divisões rítmicas, que ele fazia esse tipo de música sem ter a menor consciência do quanto era inovador, já nos anos 40.

A Bossa-nova que inclusive está fazendo 50 anos, tem em Geraldo Pereira e em Mangueira sua pré-história, mas isso pouco é lembrado, infelizmente. Além de João Gilberto, Geraldo foi gravado por Moreira da Silva (o antológico Acertei no milhar, em parceria com Wilson Batista); Cyro Monteiro, Aracy de Almeida e outros tantos. Nos anos 60, foi redescoberto por João Gilberto e mais tarde Gal Costa também gravou Falsa Baiana. Mais recentemente teve sambas gravados por Zizi Possi, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Martinho da Vila, João Nogueira e Zeca Pagodinho, que inclusive gravou a hilária: Cabrita mal sucedida. É também de sua autoria: “Sem Compromisso” gravada por Chico Buarque e outros tantos nomes da MPB. Quem não conhece? O próprio Geraldo Pereira chegou a gravar seus sambas com relativo sucesso na década de 1940.

O grande legado desse sambista, cantor e compositor, é justamente a inovação, que lhe dá o status de gênio, colocando-se como um dos principais nomes da música nacional.

Em “ESCURINHA” ele promete a sua amada, lugar de destaque na escola de samba em que é diretor e claro, um barraco no Morro de Mangueira. Já em “ESCURINHO”, lamenta as desventuras de um bom rapaz, enfeitiçado pela praga de uma ex-namorada e que tornava-se briguento e arruaceiro. “Falsa Baiana” ironiza as moças que entram na roda de samba e não sabem dizer no pé. “Ministério da Economia” brinca com as promessa populistas do chefe da Nação. “Cabritada mal sucedida” é a aventura bem-humorada de uma cabritada feita com produto, digamos, de procedência duvidosa…e “Bolinha de Papel” é uma bela cantada e promessa de amor eterno e dedicação (vou ao banco, tiro tudo pra você gastar, posso até ó Julieta, lhe mostrar a caderneta se você duvidar). Esse verso escrito a mais de 50 anos, é de uma riqueza poética, bom gosto e melodia, de uma divisão rítmica que encanta e comove os ouvidos mais exigentes, como ocorreu com João Gilberto. Hoje em dia, isso infelizmente é raridade. Geraldo não era letrado, como a maioria dos sambistas de sua época, soube viver e deixar sua obra para eternidade, pois enquanto houver bom gosto e cantores dispostos a nos brindar com o melhor de nosso cancioneiro, a obra de Geraldo Pereira estará viva e perpetuada. Chegou a ser enredo da escola de samba Unidos do Jacarezinho, que é afilhada da Estação Primeira de Mangueira, com o tema: Geraldo Pereira, a Eterna Glória do Samba. Com esse desfile, a escola venceu seu grupo de Acesso.

Mauro Santos


Fiquei pensando sobre o que escrever nessa primeira coluna e diversos assuntos me rodearam a cabeça. Em primeiro lugar, porque é uma grande responsabilidade falar de Mangueira, ainda mais num site com a qualidade que o amigo Rafael criou. Ao mesmo tempo que Mangueira tem histórias que não acabam mais e um conteúdo infinito de assuntos, sempre faltam palavras para se dizer algo.

Ao tentar falar de Mangueira, o poeta Hermínio Bello de Carvalho e o sambista portelense Paulinho da Viola, resumiram logo:

30_paulinho1 “A Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação.”

Pois bem! Semana passada me dirigia a São Paulo e quando vou a S. Paulo de carro, vou sempre muito bem equipado para encarar com paciência e bom humor e caótico trânsito da cidade. E quando falo equipado, é equipado de músicas de qualidade para ficar ouvindo entre um e outro sinal fechado (olha o Paulinho aí de novo!!!).

Depois de muito tempo, peguei para ouvir CHICO BUARQUE DA MANGUEIRA e de repente, em plena Ponte do Limão, me vi absolutamente envolvido com o som que saía dos auto-falantes do meu carro e de verdade, me emocionei….

Fiquei tentando dar a dimensão exata do que é Mangueira. Do que é a Estação Primeira de Mangueira….

chicoComo pode uma escola de samba, nascida e criada no morro, habitada por gente tão simples, como diz outro samba, na maioria negros, totalmente excluídos da chamada sociedade do início do século passado, mal passados 30 anos da edição da Lei Áurea, teria ganho aquela dimensão e hoje ser a maior e mais respeitada instituição cultural desse país? Como aquele bloco carnavalesco embrionário, marginalizado, perseguido pela polícia, hoje é recebido com pompas e circunstâncias nos melhores salões dessa nação e até do mundo, visto o galhardão exposto com orgulho no Palácio de Buckingham?

Depois de pensar um pouco, concluí que essas glórias da verde-rosa se deram quase que exclusivamente por uma única manifestação: A POESIA. A poesia e o samba, claro… O poema musicado por nossos mestres.

Aí me deparo com o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda, badalado e conceituado nos mais restritos ciclos intelectuais… O Chico “das artes, o gênio” como bem definiu o samba-enredo em sua homenagem em 1998, quando a Mangueira conquistou mais um campeonato, se colocando na condição absoluta de fã, de aprendiz diante das obras de Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Padeirinho, Guilherme de Brito…

E outros, como Herivelto Martins, Caetano Veloso e o próprio Chico, que embora não residentes em Mangueira, sempre fizeram questão de compor sambas de exaltação à escola ou ao morro. Isso sem falar nos portelenses Paulinho da Viola, Monarco, Gilberto Gil, João Nogueira, Paulo César Pinheiro e tantos outros que também fizeram questão de mostrar seu carinho e admiração pela verde-rosa. O salgueirense Benjor, o imperiano Arlindo Cruz e tantos, tantos outros.

É só passear pela Música Popular Brasileira que veremos Mangueira sendo pronunciada nas vozes dos mangueirenses Alcione, Jamelão, Beth Carvalho, Sandra Sá, Emílio Santiago, Leci Brandão, Rosemary, Gal Costa, Maria Bethânia e tantos outros, como Clara Nunes, Ataulfo Alves, Jair Rodrigues, Roberto Ribeiro, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Simone, Dudu Nobre, Cauby Peixoto, Margareth Menezes e inúmeros cantores e cantoras do primeiro time de nossa música.

Então, ao ouvir a voz do Chico entoando Sala de Recepção, enchendo o peito de orgulho e dizendo, na primeira pessoa que: “Temos orgulho de ser os primeiros campeões”, não pude conter a emoção… Chico Buarque, com sua voz pequena e anasalada era a tradução exata do meu sentimento de mangueirense e acredito que de todos nós que amamos essa escola de samba.

Que digam que somos convencidos, orgulhosos e até muitas vezes arrogantes. Mas pergunto, como não ser? É o orgulho de pai, de mãe, é o orgulho de quem ama e vê o ser amado ser cantado em prosa e verso. É ver que somos muito grandes mesmo e que representamos muito mais que o desfile nos contados minutos e nas regras impostas que foram transformando o visual em quesito.

Como não encher os olhos de lágrimas e esquecer o congestionamento envolta e os compromissos profissionais ao ouvir Chico Buarque externar a nossa grandeza.

Vou ficando por aqui e se comecei com Paulinho da Viola, termino também com Paulinho da Viola, pedindo emprestado um verso que ele fez pra sua querida Portela, porém “…se for falar em Mangueira, hoje não vou terminar…”.