No próximo dia 11, Cartola estaria fazendo 100 anos se estivesse vivo. Mas o grande compositor, poeta e um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira receberá inúmeras homenagens mais que merecidas. A comemoração tão falada no ano passado com um grande enredo de 2008 falando sobre Cartola acabou abafada pela crise financeira e uma ajuda que caiu da prefeitura de Recife. Durante este anos, vários eventos estão, aos poucos, fazendo seu lado, muitos deles eu divulguei aqui, e os shows tem sido incríveis, como não poderia ser diferente.
Agora que a data do aniversário está chegando, a Fundação Cartola está intensificando o ritmo de homenagens. No próprio dia 11, às 7 horas da manhã, acontecerá uma “Alvorada de Tambores”, onde inúmeros ritmistas de diversas agremiações tocarão surdos em harmonia homenageando criador e criatura, Mestre Cartola e a Mangueira com a encenação de “…todo mundo te conhece ao longe, pelo som dos seus tamborins e o rufar de seu tambor…”. O evento acontecerá em frente ao Centro Cultural Cartola, ao lado do Palácio do Samba na Visconde de Niteroi.
As 14 horas, será servida uma feijoada para reunir intérpretes, parceiros, Velhas-guardas, amigos e admiradores de Cartola. Na homenagem, participarão a Orquestra de Violinos Cartola Petrobras e terá a leitura de poesias por diversos atores, comandada por Geraldo Carneiro. Às 18 horas, encerrando as festividades do dia, será rezada uma missa em Ação de Graças.
Dia 13, será o dia do grande evento preparado no Canecão, onde haverá um show memorável aberto ao grande público, tendo em vista que os outros eventos serão apenas para amigos, família e convidados. A casa de espetáculo apresentará às 20:30 o espetáculo “Cartola Eterno” com um elenco imperdível.
O palco será dividido por nomes como Alcione, Beth Carvalho, Leci Brandão, Emílio Santiago, Nelson Sargento, Arlindo Cruz, Elba Ramalho, Sandra de Sá, Jorge Vercilo, Mart´nália, Rildo Hora, Dorina, Flávio Bauraqui, dentre outros. Além, é lógico, da presença imprescindível da Velha Guarda da Mangueira.
O evento, que também contará com a participação da Orquestra de Violinos Cartola Petrobras, terá sua renda revertida para os projetos culturais do CCC. O Centro Cultural Cartola, responsável pelo acervo do artista e organizador das comemorações pelo centenário, é dirigido pelos irmãos Pedro Paulo Nogueira (presidente) e Nilcemar Nogueira (vice), netos do “eterno mestre Cartola”.
Informações : Centro Cultural Cartola - 21 - 3234.5777 (ou no Canecão, pelo fone - 21 - 2105.2000)
Por esses dias me peguei analisando uma pergunta, que nunca tinha me chamado grande atenção. Contudo, dessa vez me fez pensar e repensar aquilo que nós muitas vezes falamos sem conhecimento de causa, ou então falamos o que nos vêm à cabeça, sem grande analise, ou muitas vezes sem nem entender o que nos foi perguntado, a profundidade daquilo, e como aquilo poderá ou não influenciar no pensamento da pessoa sobre você. Muitas vezes se fala vergonhoso, para evitar aquela piadinha sem graça, e que logo vem uma resposta tão ríspida quanto a pergunta, todavia isso não chega nem a ser uma falta de educação, é uma forma de proteção, para a pergunta que você pensa e repensa várias vezes se deve responder ou não, e se houver maiores perguntas do tema, você acaba dizendo por dizer. Creio que todos sabem qual é a pergunta, a famosa, “Por que você é mangueirense?”, “Qual escola você torce?”, “O que te fez levar a esse pensamento?”. E claro aquela piada sem graça culmina a conversa, por tanto, esqueçamo-la, e enfoquemos no que realmente é importante.
Realmente esses dias, fiquei me perguntando… “Por que sou mangueirense?”, eu particularmente, não tenho família envolvida no samba, muito pelo contrário, eu iniciei isso dentro dela, e hoje muito já até desfilam. Mas não encontre resposta sobre tal indagação, e fui ler o texto estupendo, sem adjetivos para classificá-lo, do Rafael, nosso editor chefe, e realmente acredito que encontrei uma resposta, e mais uma dúvida… A resposta é que todo mangueirense tem um sentimento, inigualável, inatingível, e incomparável. Você é mangueirense, não há explicação, não há palavras para se explicar, por mais que se busque, nunca se encontra a resposta, é algo sublime, acima do bem e do mal, acima de qualquer pensamento racional, e realmente parei minha analise por aí, pois acabaria hoje em uma “casa de repouso”, pois passaria a ter sérios distúrbios mentais!(risos) Porque ser mangueirense é algo nato, você nasce com aquilo, e quando, quem teve a oportunidade, como nós de ouvir ao longe, o entoar do nosso eterno Mestre Jamelão, cantando o nosso Hino de Exaltação à Mangueira, com seu refrão inigualável (Chegou, ô, ô, ô, ô, A Mangueira Chegou, ô, ô) , e que faz, sabe-se lá porque o coração bater mais forte, a mão suar frio, as pernas tremerem, e uma alegria, de forma descomunal, que te pega desprovido, e faz muitas vezes você chorar, ou rir, sem saber por quê. E a outra indagação que me veio, foi “Qual será esse sentimento de ser mangueirense?”, pensei, repensei, analisei, dormi pra ver se algo durante meu repouso me vinha à cabeça, e nada… Estava ficando preocupado, realmente preocupado, por que aquela indagação não me saia do pensamento. Até que cheguei a uma conclusão óbvia, e que, creio eu, estava à fronte dos olhos. Ser Mangueirense é um sentimento por si próprio, não há demais adjetivos para classificá-lo. Assim como os demais sentimentos do Amor, Paixão, Carinho, Saudade, “Ser Mangueirense”, é algo acima de qualquer analise, e que deveria, a meu ver, estar no dicionário, pois sentimento igual, não há. Ou melhor… Há! Mas esse sentimento entra no aspecto esportivo, e como não somos um blog que trata de tal tema, me abstenho de qualquer comentário.
A outra pergunta que também me tirou o sono, foi “Por que sou mangueirense?”. Lembro-me que em 2005, estávamos eu e um professor conversando sobre torcida, e eu fiz uma analise dizendo que era mangueirense. Ele continuando a conversa, e com toda educação que tem claro não fez aquela famosa piadinha… E fez uma pergunta que eu realmente nunca tinha parado pra pensar. “Por que você é mangueirense?”. Juro que me peguei de surpresa com essa pergunta, jamais alguém me viera fazer aquela pergunta, e eu respondi meio atordoado e sem pensar. “Porque meu avô era fã do Jamelão, e quando ainda vivo, e eu em minha tenra idade, me fazia ouvir seus inúmeros LP’s do grande intérprete mangueirense, creio eu, que ficou guardado na memória, e quando tomei consciência, já vi que era mangueirense”. Mas na verdade me lembro como se tivesse sido essa madrugada… Estava em minha casa de praia, durante o carnaval de 2002, vendo televisão, e passando os desfiles das escolas de samba. Fiz até uma observação para com a minha tia que estava preparando algo para todos nós, tínhamos acabado de chegar da rua. “Poxa… Que nominho de escola, Mangueira”, minha tia não deu grande importância, e ai continuamos, até que meus primos e outros tios chegaram, e ficamos ali vendo o famoso desfile “Brazil com ‘Z’ é pra Cabra da Peste, Brasil com ‘S’ é a Nação do Nordeste”, do então carnavalesco Max Lopes. E vendo aquela comissão, com pessoas entrando e saindo das malas, aquele abre-alas imponente, todo branco, aquele desfile colorido, todo respeitando o Verde-e-Rosa, até que perguntei por que estava tudo naquela cor, e me disseram, “Por que são as cores da escola”, claro não dei grande importância, e continuei, ao final do desfile apareceu aquele senhor, que a voz durante o desfile me parecia familiar, em cima do carro de som cantando com todas suas forças, e aquilo realmente me chamou muita atenção… Nos demais dias só me vinha à cabeça “Vou invadir o nordeste, seu cabra da peste/ Sou Mangueira…”. E na quarta-feira de cinzas, depois de um dia de praia, todos foram descansar, eu fui ver a apuração do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro. E lá estava eu vendo a apuração, o cara falando, e eu não entendendo absolutamente nada. E passava aqueles resultados parciais, e vi o nome “Mangueira”, e pensei comigo, a escola estava bonita mesmo. E continuei vendo, para o final da apuração não sei o que acontecia, mas uma ansiedade, uma euforia, algo que realmente chegou “do nada”, um aperto do meio, e aquele 1 décimo, quase matando, até que veio a notícia “Estação Primeira de Mangueira Campeã do Carnaval 2002”. E veio o nome realmente da escola, e aquele “Estação Primeira”, me chamou muita atenção, PRIMEIRA. No demais… Todos já sabem o final por certeza, e por conhecimento de causa, sei que todos tiveram seu amor iniciado se não desta maneira, de forma bem parecida.
A partir daí entendi, que eu já era mangueirense, talvez antes de nascer, ou até em demais vidas (para quem o acredita), mas realmente é algo inexplicável, algo acima de tudo que se pode imaginar. Não existe “Amor à Estação Primeira de Mangueira”, paixão… Nada disso. Existe apenas um sentimento sublime, que só quem torce pela Verde-e-Rosa da Mangueira, que só quem já sentiu dentro de si, sabe qual é o sentimento maior de “Ser Mangueirense”.
O renascer da Lapa, berço boêmio carioca, hoje, abrigando todas as tribos urbanas de sons, batuques e ritmos, não podia esquecer o samba. Dentro desse clima de folia constante, surge uma roda de samba onde a raiz do samba é mostrada sob o som do Grupo Regente da Mangueira, a maior escola de samba do mundo.
Ninguém melhor que um grupo de professores para levar à Lapa o mais puro samba carioca. O professor Jorge Luiz, membro da atual diretoria da Mangueira, juntamente com seu amigo Malakias, ambos fundadores da Banda da Glória e participantes de vários blocos carnavalescos da Lapa, da Glória e do Catete, resolveram levar suas experiências na organização de eventos populares para, hoje, o maior centro de entretenimento carioca - a Lapa.
O Samba do Professor acontece, quinzenalmente, às quintas-feiras, sempre às 20h, na Quadra da Lapa, situada na Travessa do Mosqueira n° 9.
A cada samba, haverá uma atração convidada que será homenageada.
Desde o primeiro desfile oficial das escolas de samba, em 1932, duas agremiações se fazem presente: a Mangueira e a Portela. O Império Serrano, fundado em 1947, viria a integrar esse time do samba e, seis anos mais tarde, os Acadêmicos do Salgueiro também adentrariam no seleto grupo daquelas que viriam a ser as grandes escolas de samba do Rio de Janeiro. A Portela de Velho Natal trouxera invenções que viriam para ficar no desfile: a criação de alegorias (ainda em 1939) e alas fantasiadas de acordo com o enredo. O Império Serrano não fez por menos: criou os destaques, com fantasias-síntese do enredo, introduziu na bateria novos instrumentos, como os agogôs e pratos, e o primeiro samba-enredo incrivelmente curto e sintético: “Exaltação a Tiradentes”, de 1949. E o Salgueiro, abrindo os braços para um grupo seletíssimo de artistas plásticos que vinham da Academia de Belas-Artes, revolucionou não só o conceito de comissão de frente em 1963, com o famoso “minueto” de Chica da Silva, mas trouxe, e fez disso a sua marca, a possibilidade de as escolas criarem enredos voltados para a História não-oficial do nosso país: Chico Rei, Aleijadinho, Dona Beja, as assombrações do Rei de França, e outras mirongas em vermelho e branco.
Coube, portanto, à Estação Primeira de Mangueira, a tarefa de incorporar, aos poucos, essas mudanças. Mas não de modo indiscriminado. Porque sempre houve na escola uma legítima resistência à modernização desrespeitosa, fazendo parte da Manga uma reverência permanente às suas raízes e uma certa recusa subversiva à inserção no mundo do espetáculo, no pior sentido que esse termo pode ter, e tem, hoje em dia. O surdo sem resposta, por exemplo, é a prova de que a Mangueira, apesar de tudo e de todos, insiste em continuar sendo a Mangueira, independentemente da moda e das “bossas”, tão veneradas hoje em dia, às vezes dentro da própria escola.
Mas nem tudo são rosas. Como a escola de samba é regida pelos homens, por pessoas, e as pessoas, em grupo ou isoladas, erram e acertam no jogo da vida, diante das contingências, a escola de Cartola, na sua longa e duradoura trajetória, passou por várias tentativas de modernização, com resultados, em sua maioria, insatisfatórios. Em 1976, uma escola pequena, que até então se comprazia em enaltecer a ditadura militar, venceu o carnaval (sintomaticamente, louvando o jogo do bicho) e quebrando a hegemonia de campeonatos de mais de trinta anos das “quatro grandes”: Mangueira, Portela, Salgueiro e Império. Era a Beija-Flor de Nilópolis, que instituiu um novo padrão de carnaval já na década de 1970: carros enormes, corpos nus e um luxo assombroso, que remodelou o conceito de desfile e que obrigou as demais escolas a repensarem os seus próprios carnavais. Para a Imperatriz Leopoldinense e a Mocidade Independente, recém- chegadas à elite do samba também nos anos 70, essa assimilação foi fácil-e, aberto o caminho pelo pássaro nilopolitano, essas escolas aderiram à estética do luxo (muitas vezes aliado à pesquisa, como nos carnavais de Arlindo Rodrigues na Mocidade e Imperatriz) e faturaram seus primeiros títulos já nos anos 70 (Mocidade, campeã de 1979 com Descobrimento do Brasil,e Imperatriz, bicampeã em 1980-81, com O que é que a Bahia tem e O teu cabelo não nega, respectivamente).
Enredo: AS MIL E UMA NOITES CARIOCAS
Autor(es): Flavinho, Heraldo Faria e Tolito
Só que as “escolas-mãe”, por assim dizer, tiveram muita dificuldade em assimilar essa nova proposta, e a criação do Sambódromo piorou mais ainda a situação. Com exceção do louvável e profético campeonato do Império serrano em 1982, com Bumbum Paticumbum Prugurundum (“superescolas de samba S/A”), as quatro grandes pareciam não entender muito bem o que queriam a Beija-Flor e suas coirmãs. Ainda baseada num carnaval tradicional, a Portela deixou de vencer os desfiles- e seu último campeonato “solo” data do ultra-longínquo ano de 1970. O Salgueiro, depois de 1975, só voltou a ser campeão uma única vez- por aclamação popular, em 1993; e a Serrinha ficou por ali mesmo, no também distante 1982. A Mangueira amargou onze anos sem título, mas obteve vitórias memoráveis em 1984, 1986, 1987- e, de lá pra cá, obteve títulos ainda em 1998 e 2002. De todo modo, foi ficando cada vez mais difícil para as escolas tradicionais, cuja ênfase sempre esteve no “chão” (ritmo, canto, dança, samba e vigor) mudarem o foco e aderirem sem crises ao espetáculo feito para a televisão e para os turistas, meio Broadway, meio parada militar- e, claro, envolvendo cada vez mais impensáveis somas de dinheiro.
Enredo: ABRAM ALAS, QUE EU QUERO PASSAR
Autor(es): Helio Turco, Jurandir e Darcy
A primeira grande tentativa da Mangueira de aderir aos modismos data de 1982, com a contratação de Fernando Pinto. Artista plástico e músico pernambucano, estreara no Império, protagonizando carnavais memoráveis nos anos 70, e migrara para a Mocidade, onde pôde desenvolver com mais propriedade seus enredos delirante-tropicalistas. Só que toda essa lisergia aportou na Velha Mangueira em 1982, com o enredo As mil e uma noites cariocas, que contava, em tom de fábula, a história das noites do Rio, desde os índios nativos até a boemia musical e as noites da zona sul. Pela primeira vez via-se neon nas alegorias, e a plástica do desfile deixou os mangueirenses bem confusos: como poderia haver fadas, condes, princesas, sacis e Vinicius de Morais no mesmo pacote? Exaltando a cidade do Rio, mas apostando no ilusionismo e na vanguarda delirante de Fernando Pinto, a Manga não passou de um quarto lugar, motivo suficiente para que a escola percebesse que o carnavalesco, talentosíssimo, não chegara ao “coração” da Verde e Rosa, talvez por ser “moderno” demais.
Enredo: MANGUEIRA ENERGIZA A AVENIDA. CARNAVAL É PURA ENERGIA E A ENERGIA É O NOSSO DESAFIO
Autor(es): Lequinho, Junior Fionda e Amendoim
Outro momento, esse mais trágico, ocorreu três anos mais tarde, em 1985. A Mangueira vinha de um supercampeonato com Yes, nós temos Braguinha, mas motivos alheios ao samba fizeram Max Lopes, o responsável pela vitória da escola, migrar para a Unidos de Vila Isabel- e a Manga então contratou Elói Machado e Bia Dumont como carnavalescos, ele famoso por seus desfiles de fantasia no Municipal, ambos trazendo na bagagem o estágio em Hollywood com o mago dos efeitos especiais George Lucas, o mesmo de Guerra nas estrelas. Os carnavalescos prometiam revolucionar a estética da escola, com o enredo Abram alas que eu quero passar, uma homenagem à também pioneira Chiquinha Gonzaga. Mas na manhã de segunda-feira do carnaval de 1985, pela primeira vez sem Jamelão, que não chegara a tempo para o desfile, e sem o mestre-sala Delegado, a Mangueira só não passou irreconhecível pela pista porque o excelente samba e o canto de fé dos componentes não deixaram a peteca cair. Mas onde estavam os componentes, mesmo? Atrás de carros gigantescos, escondidos por plataformas para destaques como Roberta Close e com fantasias que investiam pesado no resplendor, nas cangalhas, nas “ombrites”; e debaixo de tons que fugiam do verde e rosa tradicional da escola- o que, para qualquer mangueirense que se preza, é quase uma sentença de morte. Resultado: nono lugar, até então a pior colocação da história da Manga.
Um terceiro ano triste, sombra numa seqüência de luzes, foi 2005. A escola vinha de desfiles extraordinários, criados por Max Lopes, que para lá voltara em 2001. Campeã em 2002, vice em 2003 e terceira colocada em 2004, a Manga não só acatou o patrocínio da Petrobrás como fez do slogan da empresa seu próprio título de enredo- Mangueira energiza a avenida. O carnaval é pura energia e a energia é o nosso desafio… a Rede Globo não faria melhor. Embarcando na “novidade”, Max Lopes fez uma de suas piores criações em todos os tempos: carros cheios de luzes, com formas vazadas e muitas vezes ininteligíveis, e alas divididas verticalmente- o que, claro, destruiu a evolução da escola e o próprio componente, já que esse não podia ocupar a outra metade da avenida, preenchida por uma fantasia diferente da sua (na concepção do carnavalesco, o “pólo negativo” da primeira fantasia).
Mas o que mais chocou a todos, além do samba pífio, foi a abertura, em preto e branco, com malabaristas da “Intrépida Trupe” dando cambalhotas, contorcendo-se e fazendo do desfile seu teatro particular. Nunca a Mangueira esteve tão próxima da Mocidade dos anos 90. Teatro particular, aliás, tão sinistro quanto o de Carlinhos de Jesus, que, apostando no sentimentalismo barato, amealhou integrantes da Velha Guarda para a comissão de frente e protagonizou uma das apresentações mais constrangedoras do desfile de 2005. Moderna, inovadora, rica, estranha e… fria. Essa foi a Manga de 2005, cuja imagem pode ser traduzida pela ala das baianas, fantasiadas de “buracos-negros”, com pavorosos óculos escuros- ai, as nossas baianas… Os jurados foram até complacentes com a Verde e Rosa, conferindo-lhe o sexto lugar. Mas ficou, no coração de quem ama a escola, uma lembrança triste.
A História, que nada perdoa, ensinou algo importante às velhas escolas: quem é raiz e tronco forte, não pode se passar somente por fruto lustroso em cesto de vime. Da mesma forma que o Salgueiro identifica-se completamente com enredos afro, parte de sua própria história, a Mangueira, Velha Senhora soberana, Jequitibá do Samba, também não topa muito as invencionices de carnavalescos e coreógrafos que querem aparecer mais do que ela mesma. Cabe a nós, componentes e amantes dessa majestosa escola, torcer para que o carnavalesco de 2009 perceba que, entre a Estação Primeira e a Grande Rio existe a diferença de quase um século. Um século de samba.
Há algum tempo atrás, eu estava num evento no Palácio do Samba em um pequeno lançamento que acontecia naquela data. Sentei-me à mesa que honrosamente ficava junto à mesa de algumas senhoras da Velha Guarda. As senhoras estavam muito elegantes, e como sempre, não faltavam sorrisos e cervejas. Elas não paravam de contar piadas, “causos” engraçados do passado e falavam sobre grandes emoções já vividas em Mangueira, por Mangueira e para a Mangueira.
Histórias que faziam todo admirador da cultura verde e rosa ficar ali como uma criança na loja de doces. Elas lembravam de muitos desfiles, cantarolavam pedaços de samba, como se aquilo fosse uma competição para ver quem tinha a melhor memória. Quando mencionaram o samba de exaltação deixei meu radar ligado, afinal sempre fui grande admirador. Para minha surpresa, uma das senhoras, que fui conhecer pouco depois e que me pediu para que seu nome não fosse citado falou; “Lembro que há muito tempo atrás, algumas vezes tocava o hino da Mangueira”… algumas fizeram cara de surpresa, outras não lembravam, quando outra senhora disse: “Sim, divina mangueira” e aí todas cantarolaram “Mangueira que dá manga-rosa”. Fiquei pasmo. Na hora fiquei com vergonha de perguntar, mas aquilo ficou martelando semanas na cabeça.
Pesquisei no Google e em outros cantos da internet, mandei e-mail para a diretoria da Manga, para comunidades do Orkut, para blogs e sites de samba, mas ninguém sabia me responder. A resposta era sempre a mesma… “Só sei do samba de exaltação mesmo.” Foi quando eu vi que ninguém melhor que nossa Velha Guarda para saber as memórias da nossa escola. Conversei com um amigo da bateria, daquelas figurinhas carimbadas em Mangueira e ele me apresentou, justamente para a senhora que havia cantarolado uma pequena parte da letra. Ela cantou pela primeira vez aos meus ouvidos em meio ao frevo do ensaio, a música “Divina Mangueira”. Cheguei a pensar em anotar, fiquei sem graça na hora, cheguei a tentar lembrar do refrão e colocar no papel, quando palavras faltaram e era só a melodia. Já estava com algumas cervejas na cabeça, fui curtir o ensaio e no dia seguinte restava apenas a expressão “divina Mangueira”. Foram mais alguns meses procurando junto com amigos da bateria, alguém que pudesse cantar a letra, até que cai da terra um LP, sem capa, arranhado, com uma fita crepe colada escrito em caneta azul 3- Divina Mangueira.
Era sexta-feira, ensaio de rua, quando aquela relíquia chegou à minha mão. Estava empolgado com a notícia que havia batido em minha caixa do email, mas a emoção se transformou em tristeza logo que vi que dali não sairia música de forma alguma. Na hora arrumei um saco de supermercado com o Lacir, o dono do quiosque que freqüento por lá. Coloquei aquele LP sujo e arranhado e botei no meu carro. Nem acabei de ver o ensaio, liguei pelo celular para um amigo, ele atendeu bêbado, parecia que nada ia como eu esperava. “Tô no Baixo bem acompanhado, Angra amanhã?”. Convencí o bêbado cambaleante, fomos para o estúdio dele em Ipanema. Ele sabia que aquilo era importante para o “brother” de tantas aventuras.
“C adê a porra da chave?”, perguntei, não acreditando que depois de tudo morreríamos numa sexta à noite na porta do estúdio. Conseguimos falar com o sócio dele que, por coincidência do destino, estava no Devassa, bem na frente do prédio do estúdio. Corri para lá enquanto o bêbado tirava um cochilo sentado no hall do prédio. Quando entramos, tirei o LP do saco e coloquei sobre uma flanela, ele dizia:
- Pô Rafinha, ta de sacanagem, que merda é essa?
- Cara, precisamos recuperar a faixa 3 deste disco.
- Vamo pro terreiro, não rola! Lixaram este disco, não ta vendo…
- Só preciso da faixa 3, vale um Juanito Caminante (apelido do Johnny Walker que usávamos na época de ginásio)
- Cara, eu não vou botar agulha nenhuma minha nesta merda.
- Se vira, não sei quanto custa, eu pago.
- Não me responsabilizo.
Quando vi o Leo tava com meu LP já sem a fita crepe, lavando o LP em baixo da pia. PIREI!
- Tá maluco?
- Agora que você me botou nessa não reclama, temos que fazer isto antes de ele começar a empenar!
Confesso que já estava me arrependendo de pedir aquilo para o Leo, que nunca regulou bem, ainda por cima, bêbado como um gambá.
Ele ligou a aparelhagem poderosa do estúdio, colocou o LP para rodar e foi enxugando com cuidado. De repente, desceu e agulha e eu não acreditei quando ouvi pela primeira vez, o som dos cavacos estava muito mais limpo do que eu imaginava….
“Você é tempestade e paixão
Do samba é o coração”
Logo o sorriso no meu rosto se acabou… o LP começou a pular e o Leo comemorando. Eu ficando PUTO da vida e ele solta:
- BOOOOA, a introdução estava perfeita até a hora que a gente precisava
- “Brother”, vou te introduzir… deixa pra lá (segurando uma latinha de Coca Cola)
- Não, esta faixa só tem este arranhão grave e fundo, o resto à gente pega da segunda metade que ta relativamente limpa e cola aqui.
- Você que é o “expert”
- Então não enche meu saco.
Durante os vinte minutos seguintes, vi o Leo de headphone na orelha, balançando a cabeça, mexendo os pés e tome clique de mouse, arrasta aqui, clica lá puxa acolá. Cortando, emendando as partes, colando um trecho no outro. E eu andando pelo estúdio, mexendo nos “brinquedinhos” dos meus amigos mais loucos. Eles estavam fazendo jingles de propaganda da Coca-Cola e o escritório estava cheio desses materiais., o que só aumentava a minha tensão e o nervosismo de ouvir a música toda, límpida. De um lado a pureza da Manga, seu samba mais lindo, uma jóia rara; de outro, rótulos e mais rótulos de um refrigerante que, dentre outras coisas, é um ótimo desentupidor de pias. O sublime e o grotesco convivendo harmonicamente naquele estúdio psicodélico.
- TEMOS UMA MÚSICA inteira, seu LP; amanhã não existe mais, vai ficar tortinho
- Foda-se “brother” amanhã eu te devo um Juanito, esquece o LP, eu tenho o que eu queria.
- Rafa, ta uma merda esta porra… vamos para Angra que segunda eu remasterizo isto e a gente faz um milagre. Paga uma Salinas lá na Academia da Cachaça.
Convencido, para lá rumamos, eu, só alegria e o Leo puto. Eu não ia para Angra porque sábado era dia de Palácio. Sentamos na sala de vidro e tomamos um porre de felicidade. Nem lembro como saí de lá, sei que meu carro foi dirigido por alguém que chegou lá para beber com a gente. VALEU JUJÚ! Só descobri o mistério na segunda-feira quando ela me ligou e me contou que eu tava estragado.
O Leo não tinha me dado o arquivo da música e eu não estava seguro em relação ao resultado, passei o fim de semana pensando naquilo. Na segunda-feira, liguei pro Leo e ele falou que estava numa força- tarefa para acabar o trabalho da Coca-Cola e que só trabalharia na música quando terminasse. Mais uma semana tentando botar as frases que lembrava entre aspas no Google, sem resposta nenhuma, pois aquela letra não estava na Internet, e até hoje continua fora dela.
Na quarta-feira seguinte, ligou-me a secretária do Leo falando que estava me mandando um mp3 com a música remasterizada, mas o Leo exigia como pagamento um “Juanito”. Liguei para o motoboy, coloquei a garrafa num envelopão pardo, escrevi um bilhete.
“Irmão, você nunca saberá o que o que você fez por mim.
Agradeço demais sua ajuda, segue anexa ao bilhete a garrafa prometida.
Teu Brother,
Rafa
P.S. Que delícia a voz a secretária nova heim?”
Nem preciso dizer que quem abriu o envelope foi a secretária e leu aquilo. Isto me gera até hoje uma sacaneada toda vez que ligo para o Leo, pior que a secretária “tomara que ela não leia” era casada, tinha passado da idade e pior, era tia do Leo. O motoboy voltou com um cd gravado para mim com a versão picotada, a versão montada e a versão remasterizada. Estava num dia de cão no trabalho e acabei guardando comigo, um tempão, não tinha o site, não tinha como postar, resolvi preservar, resguardar aquela relíquia e isto virou uma necessidade imperiosa: a de que todo novo/velho mangueirense pudesse saber alguma informação sobre aquele hino.
Meses depois fiz o site e esperava um bom momento para postar um texto contando tudo. Não tinha idéia de quanto tempo, trabalho isto ia me custar, a questão é que eu vinha falando sobre com alguns amigos e estava devendo isto. Pensei em postar o áudio antes de ter a letra completa, mas senti que ainda não era o momento.
Já tinha tido tanto trabalho, resolvi transcrever, com a ajuda da Bruna e do Fabinho (obrigado a ambos), foi difícil mas saiu, várias audições, discussões sem fim , muitas análises etc. E conseguimos, graças às derradeiras palavras vindas num email que completavam o que faltava e que, quando lidas no celular, finalizavam o trabalho , pronto para ser postado em primeira mão.
Hoje, compartilho com vocês, leitores mangueirenses e sambistas que devem sentir tanto prazer como eu. Mando a última versão, em vermelho e letras maiúsculas, para mostrar as últimas dificuldades que tivemos. Ainda bem que o Fábio não toca tamborim e ainda tem os tímpanos no lugar, porque os meus não servem mais pra muita coisa. Enfim, saboreemos esse manjar dos deuses: um hino de amor à nossa Verde e Rosa.
DIVINA MANGUIERA, o Hino da Estação Primeira de Mangueira
Autor: desconhecido
Você é tempestade e paixão
Do samba é o coração
Flutua no peito de quem ama
Da poesia faz a chama
Que simboliza a força do amor
E ameniza os anseios e a dor
Suas raízes NUNCA IRÃO MORRER
Seu tronco é o pulsar DE MUITAS VIDAS
Os galhos é o sol, o amanhecer
As folhas são raios aquecendo a Avenida
Você é como dádiva do céu
Sua alegria vai contagiando
Nesse momento o amargo se transforma em mel
O povo sorrindo, cantando, chorando, gritando
ÉS BELA, ÉS história majestosa
és A DIVINA
Mangueira, QUE DÁ manga-rosa
Como não poderia deixar de fazer, segue o Mp3 para ouvir agora ou para baixar.
Queria agradecer mais uma vez os participantes da “saga”. À senhora que pediu para não divulgar o seu nome, à toda Velha Guarda, aos amigos de bateria, aos que não querem aparecer, mais Jeffrey, Mico, Arídio e o lisura total Douglas, Bruna, Fabinho e Leo. Vocês fizeram um importante papel para a cultura verde e rosa. E o presente todos ganhamos…