Mangueira, o berço da Bossa
quinta-feira, agosto 28th, 2008
“Aqui nasceu a bossa-nova!” A frase pronunciada por Tom Jobim, não se referia a nenhum local na Zona Sul do Rio de Janeiro, mas sim a outro, um pouco mais distante, mais precisamente o Morro de Mangueira.
O maestro e compositor, Antônio Carlos Jobim sabia bem o que falava, já que é considerado um dos “pais” do movimento que saiu do Rio de Janeiro para o mundo, sendo talvez o mais bem sucedido movimento musical brasileiro, em termos de projeção internacional.
Tom Jobim disse isso, em 1992, quando pisou no Palácio do Samba, quadra da Estação Primeira de Mangueira, às vésperas do carnaval em que seria homenageado pela verde-rosa.
Os mais desavisados ficaram surpresos com a declaração de Tom, sem entender bem o que ele queria dizer, achando talvez que fosse uma forma educada de agradecer à escola, pela homenagem que lhe era prestada. Mas esse agradecimento, ele fez em forma de canção: Piano na Mangueira, em parceria com Chico Buarque.
A declaração do maestro se referia, porém, a outro mangueirense, igualmente genial, mas de certa forma, pouco conhecido: O compositor e cantor Geraldo Pereira. Pessoalmente, coloco Geraldo Pereira no mesmo patamar de Cartola e Nélson Cavaquinho, formando o que se pode chamar de Santíssima Trindade do samba mangueirense. Geraldo, porém, tem o diferencial do pioneirismo, que aliás, é sempre uma marca registrada das coisas de Mangueira.
Considerado o criador do samba sincopado, ou seja, o criador da bossa-nova, como bem definiu Tom Jobim, nasceu no município mineiro de Juiz de Fora em 23 de abril de 1908, chegando ao Rio de Janeiro aos 12 anos de idade, indo fixa-se no Buraco Quente, em Mangueira. Trabalhando num pequeno bar de um tio, foi se aproximando e se apaixonando pelo samba. Em pouco tempo já integrava a Escola de Samba Unidos de Mangueira (já extinta), indo mais tarde para a própria Estação Primeira, pelas mãos de Cartola. Viveu e cantou o morro e a boêmia. Mais tarde, já fazendo algum sucesso mudou-se para o bairro da Lapa, referência da boêmia carioca aonde veio a falecer, sendo detalhes de sua morte, até hoje, pouco esclarecidas. A mais aceita, é a tese de que foi esfaqueado pelo lendário transformista Madame Satã, vindo a óbito em razão de tais ferimentos. Mas a quem garanta que ele morreu de problemas hepáticos.
Falar da obra de Geraldo Pereira é também falar da vida de Geraldo Pereira. Cronista de sua época e de sua gente.
Nos anos 60, teve duas composições suas: Falsa Baiana e Bolinha de Papel, gravadas justamente por João Gilberto, que ao lado de Tom Jobim, é o maior expoente da bossa-nova e ao contrário de Tom, chegou a conhecer pessoalmente Geraldo Pereira, quando ainda era crooner do conjunto Garotos da Lua. Certa vez Geraldo convidou João Gilberto para ficaram conversando e bebendo num bar do bairro da Lapa. João sempre diz que a música de Geraldo era leve e cheia de divisões rítmicas, que ele fazia esse tipo de música sem ter a menor consciência do quanto era inovador, já nos anos 40.
A Bossa-nova que inclusive está fazendo 50 anos, tem em Geraldo Pereira e em Mangueira sua pré-história, mas isso pouco é lembrado, infelizmente. Além de João Gilberto, Geraldo foi gravado por Moreira da Silva (o antológico Acertei no milhar, em parceria com Wilson Batista); Cyro Monteiro, Aracy de Almeida e outros tantos. Nos anos 60, foi redescoberto por João Gilberto e mais tarde Gal Costa também gravou Falsa Baiana. Mais recentemente teve sambas gravados por Zizi Possi, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Martinho da Vila, João Nogueira e Zeca Pagodinho, que inclusive gravou a hilária: Cabrita mal sucedida. É também de sua autoria: “Sem Compromisso” gravada por Chico Buarque e outros tantos nomes da MPB. Quem não conhece? O próprio Geraldo Pereira chegou a gravar seus sambas com relativo sucesso na década de 1940.
O grande legado desse sambista, cantor e compositor, é justamente a inovação, que lhe dá o status de gênio, colocando-se como um dos principais nomes da música nacional.
Em “ESCURINHA” ele promete a sua amada, lugar de destaque na escola de samba em que é diretor e claro, um barraco no Morro de Mangueira. Já em “ESCURINHO”, lamenta as desventuras de um bom rapaz, enfeitiçado pela praga de uma ex-namorada e que tornava-se briguento e arruaceiro. “Falsa Baiana” ironiza as moças que entram na roda de samba e não sabem dizer no pé. “Ministério da Economia” brinca com as promessa populistas do chefe da Nação. “Cabritada mal sucedida” é a aventura bem-humorada de uma cabritada feita com produto, digamos, de procedência duvidosa…e “Bolinha de Papel” é uma bela cantada e promessa de amor eterno e dedicação (vou ao banco, tiro tudo pra você gastar, posso até ó Julieta, lhe mostrar a caderneta se você duvidar). Esse verso escrito a mais de 50 anos, é de uma riqueza poética, bom gosto e melodia, de uma divisão rítmica que encanta e comove os ouvidos mais exigentes, como ocorreu com João Gilberto. Hoje em dia, isso infelizmente é raridade. Geraldo não era letrado, como a maioria dos sambistas de sua época, soube viver e deixar sua obra para eternidade, pois enquanto houver bom gosto e cantores dispostos a nos brindar com o melhor de nosso cancioneiro, a obra de Geraldo Pereira estará viva e perpetuada. Chegou a ser enredo da escola de samba Unidos do Jacarezinho, que é afilhada da Estação Primeira de Mangueira, com o tema: Geraldo Pereira, a Eterna Glória do Samba. Com esse desfile, a escola venceu seu grupo de Acesso.
Mauro Santos


























